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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Imaginário

Olá, minha senhora, tudo bem? Bem, comigo não tá tudo bem não, mas com a senhora nao esta nada bem... Alias com a senhora ta muito pior! Perai, minha senhora,se acalme!  Eu não tenho muito jeito com as palavras. ! Eu não quero o seu mal não!  Eu só vim aqui porque preciso falar com a senhora. Preciso, não, tenho. Porque precisar mesmo, eu não preciso não! Alias, por mim eu nunca teria esta conversa com ninguém. Se eu pudesse escolher não ter que falar pra senhora o que vai acontecer, eu preferiria, mas não posso.  Alias podia, antes, quando eu fiz a escolha. Hoje já não posso mais. Porque o codigo, a ética ou seja lá o nome que as pessoas desse mundo dão pra essas coisas de fazer a coisa certa! Então eu to aqui. Com a maior das boas vontades. Enfim, eu to aqui nesse mato sem  cachorro pra fazer a coisa certa. Não, minha senhora, eu não sou certa. Eu sou tão errada ou humana quanto a senhora, não tem nada disso de Deus na terra, não.  Não minha senhora eu não sou infeliz, acredite, eu amo o que eu faço, e quando eu decidi, eu pensava que era uma coisa, mas é outra. É aquele negocio de realidade que as pessoas falam, ela veio como um banho de água fria as vezes. Não senhora. Eu não to aqui pra falar de mim. Eu to aqui pra falar da senhora. Eu to aqui pra dar má notícias. É isso mesmo que a senhora ta imaginando. É, tá muito pior do que a gente pensava. Quanto? Vixe, muito. Eu não queria dizer, mas a coisa ta feia pro seu lado. Feia, tipo, muito! Não minha senhora, não cura não... Ai, Deus! Assim a senhora parte meu coração! Não, não to dizendo que a senhora vai bater as botas, alias, eu to querendo dizer isso, mas não era pra eu dizer assim desse jeito! Isso não é coisa que se fale pra gente humana! Alias a gente não fala assim nem pra um cachorro! Não, minha senhora, nao to dizendo que a senhora é bicho, nao! To dizendo que a senhora merece mais consideração do que qualquer coisa neste mundo!! Mais que o cachorro, mais até do que eu, que sou um atrapalhado! Eu que to aqui deixando a senhora desse jeito! Não chora não, por favor! Não, nao sou eu, moça, é a doença. Nao, minha senhora, não foi Deus. Deus não faz essas coisas ruins com as pessoas não. Eu não sei! Não sei o que fez isso com a senhora, porque por mais que eu estudasse todos os livros do mundo eu não saberia lhe explicar, porque não tem explicação... A senhora nao tem culpa de nada nao. Não tem. Somos uns ratos, nos médicos.  Em certas coisas somos uns ratos! É isso mesmo, uns ratos! Minha senhorinha, não chore! A senhora é tão forte! Agüentou tanta coisa, tanto exame, tanta coisa! Se fosse eu no seu lugar eu já tinha morrido só de pensar em tanto tubo que tomaria! Eu aprendi tanto cona senhora! aprendi a ser menos Rato... Não, eu não quero morrer. E não quero que a senhor morra! Se eu pudesse escolher isso, eu também escolheria que a senhora ficasse aqui nesse mundo pra me perdoar de tudo isso. Sim, eu quero o seu bem, mesmo sem lhe conhecer. Não, isso não é pena não, é bondade no coração. Eu quero o seu bem de verdade. Queria que a senhora não tivesse que passar por tudo isso, de coração. De nada. Eu não to chorando não é um cisco no meu olho. Eu não sei quanto tempo lhe resta não. É que essas coisas,  eu vou lhe dar um número da sorte, um número assim do livro, e a senhora vai virar uma raposa. É, uma raposa, que nem a raposa do pequeno príncipe. Só que ao contrario. É, aquela que esperava ele todo o dia no mesmo horário. Se um dia chegar antes,  a senhora não vai nem tomar susto, porque nao vai nem estar aqui pra ver, e se for depois vai dizer que eu lhe  enganei. Eu nao quero lhe causar mais dor! Que isso! A ultima coisa que eu faria era mentir pra senhora! Não diga uma coisa dessas! Eu não sei o que vai ser. Só sei que vai ser difícil. Muito difícil. Que isso tudo é muito traiçoeiro. Mas eu vou estar aqui, pra lhe socorrer. Mesmo que eu nao quisesse, e olha que eu quero muito, tem o código! O que a senhora vai fazer? Como assim?! Vai viver! Tá louca?! Claro que vai! Isso demora! E dai? Pensa só: já não tem mais dinheiro que pague nada, já não tem mais tempo que importe, já nao tem mais trabalho que lhe obrigue, já não tem mais educação que lhe impeça de falar a verdade, já não tem mais coisas superficiais da vida, essas coisas que se vão, não é verdade? Nao tem briga. Nao tem discórdia. Não tem medo. Nao tem tempo. Nao tem discussão. Agora a senhora é livre. Livre pra viver sua vida. Faca o que lhe der na telha. E dai? Que seja pouco, mas que seja bem vivido, minha senhora! Claro! Pensa só quanta gente vai embora e nem se despede? Nada de desanimo! Anda, levanta dessa cama. Vem aqui, me da um abraço. Sim, é um abraço de coração. O primeiro que a senhora recebeu na vida? Eu duvido. Então, vem cá, deixa eu lhe abraçar de novo. Que é pra senhora lembrar bem desse abraço.  Eu quero que a senhora leve consigo ele para sempre. Até o dia que eu lhe encontrar do lado de lá. 
Mas é claro que a gente vai se encontrar lá. Eu não sei, mas lá deve ser muito bom, é o que dizem. Eu acredito. 
Sim, minha senhora, eu tenho certeza que esses vão ser os melhores dias da sua vida...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Juramento III - O Médico e o Monstro


 Exercerei a minha arte com consciência e dignidade.
 Às 17h daquela tarde meio nublada o dia parecia normal. Tudo caminhava para a ordem natural das rotinas, sem planos de transgredir os planos. Nós sempre vivemos com planos, mesmo invisíveis, esperando que as coisas sempre sejam "iguais".
O sol estava à pino. Ainda havia muita areia para transportar do caminhão para a construção.
De repente o mestre de obras o chama.
"Oh Manél, tua esposa no telefone. Urgente."
Mas o que que essa mulher quer? A revolta durou menos de 5 segundos ao telefone. Tomou conta a de preocupação, e quem diria, o desespero.
Meu pai caído no chão. A mulher não sabia o que fazer.
Ligou para a ambulância. Mas cadê a droga da ambulância.
Ele pegou as coisas e saiu do trabalho. Tinha falado com o chefe. Sabe que morte o mestre não dizia que era desculpa. Tinha como atestar.
Mas quem ali tava falando de morte meu Deus!?
"Eu tô ficando doido!" pensou.
Correu o que podia, mas o ônibus não obedece as urgências da vida.
No meio do caminho a esposa liga informando o hospital em que ela estava. Hospital ? O "Matadouro" da cidade. Vamos ter fé em Deus.

Às 17 h da tarde dublada seu Manuel estava vivendo mais uma daquelas crises de terceira idade: sentia-se inútil. As pessoas já o tratavam como "caduca". Falavam alto e devagar com ele. Escondiam dele as coisas.  Paravam de tocar em certos assuntos quando ele se aproximava. Ele era teimoso. Não ia dar o brao a torcer assim facil não. Anos de trabalho nas costas. Esses moleques tem que me respeitar.
A nora veio. Ele nem sabia como tinha começado a briga. Só sentiu a dor. Aliás, só sentiu o começo dela. O resto da dor ainda iria, horas, dias depois, permanecer no ar, no lar, assim nas pessoas...
"Fui eu a culpada!" entre as lágrimas, o desespero, a dor, o arrependimento, a salada de sentimentos não adeixava manter o controle. Só conseguia chorar, e segurar o seu Manuel nas cordas da ambulância. O técnico olhava para ela com ar de consolo, enquanto se movia de um lugar ao outro, mas já tinha desistido de falar. Agir era mais confortável. "Tô fazendo o que posso, mas sem médico, esse velho não vai resisitir muito não ...."
O barulho da sirene da ambulância era o som mais confortante.

Sentado no estar da Unidade, o médico só ouvia uns bipes contínuos dos monitores da sala, o que já era comum aos seus ouvidos de intensivista. Ruim mesmo era quando batiam as portas ou o som das ambulâncias com sirenes altas.
O barulho da sirene da ambulância sempre fora o som mais desconfortante.

Seu Manuel entrou calado, mas todo o resto fez barulho por ele. Sirene. Maca. Porta. Povo. Faz. Pega. Ajuda. Acude. Leva. Portas.
O Caos.
O médico levanta. A nora corre, vai atrás do "Doutor".  Eles se encontram. 
E durante 3 segundos olham-se. 
Reconhecem seus papéis ali. Era tudo que ela queria.
"Doutor, salve ele por favor!"

...

Depois do Caos vem a calmaria.

Se querem saber o que aconteceu com o seu Manuel, digo: é o que menos importa. O destino do seu Manuel já estava traçado no momento em que ele cruzou a porta. Ou não? 
No momento em que ele caiu na sua casa.
Mas, o destino de todas as outras pessoas ali seria o mesmo? Aí sim digo: depende.
Você procura alguém que mude esse destino. 
Alguém que mexa naquela história que está para ser triste. 
Alguém que enxergue uma solução para o problema. Um salvador.
O "Doutor".
Indivíduo o qual pode sim, interferir nesse destino se o tempo, a doença, as condições permitirem isso.

Você entrega seu familiar, seu amor, você mesmo, na esperança de que ele mude. Informe. Acalme.

Perdoem-me a falta de otimismo, mas a expectativa é o primeiro grande passo de uma decepção.
Muitas pessoas esquecem que esse "doutor" é também um ser humano. Propenso à erros. Propenso à quedas, como você mesmo é.
É dificil exigir que todos os médicos estejam sempre dispostos a tudo todo o tempo. Que tenham dedicação integral à medicina. Que vivam por ela e para ela.
Esse é o Médico.
Entretanto, terá coragem qualquer pessoa no mínimo Humana a negar este apelo?

 "Doutor, salve ele por favor!"

Como não tentar? Como não fazer o mínimo pelo seu Manuel. Como não examiná-lo, não toca-lo, não verificar se existe uma chance para ele?
Acreditem, desses olhos que viram tão pouca coisa nessa vida, e ainda têm muito a aprender: já vi.
Já vi preguiça. Desânimo. Desprezo. Tá morto. Não pertube.
Esse é o Monstro.

Afinal,ninguém colocou uma faca no seu pescoço e te obrigou a fazer medicina.
Existem tantas outras profissões tão remuneradas quanto (nem ouso aqui citar a palavra bem), ou mais do que medicina.
Normalmente convivemos com essas duas faces frequentemente.
A medicina te leva ao topo e a lama. 
Às vezes no mesmo dia. 
Se existe uma empatia médico-paciente você é o Médico. Se um paciente discorda de algo que fazemos, já pensa no Monstro.
Não há como ser médico sempre. Por mais que se tente.
Temos instintos protecionais, éticos, que muitas vezes nos farão discordar de alguém para um "bem maior".
Entretanto, concordo com muitos pacientes que relatam os Montros soltos por aí.
Afinal, eu também sou uma paciente.
Num desabafo: Monstros vão fazer outra coisa.  Não sujem o nome da medicina, uma profissão tão bonita e encantadora. Corram sim, atrás da menina dos olhos da sua felicidade.
Pacientes: entendam o seu médico. Vejam o lado humano deles. Procurem não julgá-lo antes de conhecê-lo. Conversem com ele. Diálogo ajuda a resolver muitas discordâncias da medicina. 
Quem sabe assim muitos Manuels, João e Antonios sejam salvos. Talvez alguns doutores também. 
E ao médicos e monstros meu apelo:  coloquemos os Mostros no seu devido lugar. E que seja bem longe dos pacientes. 
Assim seja.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Juramento - Parte I : Princípio Básico

 Prometo solenemente dedicar a minha vida a serviço da Humanidade...




As pernas dela doem. Os olhos fecham e abrem lentamente. O cansaço é tamanho, que não ela nem mesmo consegue relaxar por completo.
Foi um dia corrido na emergência. Quase dois dias entre pacientes, caos e defesas.
Sim, muitas vezes temos que ser o juízo e a defesa da ocasião.
E entre as preocupações na vida e os afazeres e obrigações, você pode pensar que ela está infeliz.
Mas eu digo: não.
Cansada, bastante.
Mas ela não infeliz.
A única coisa que ela lembra destes dias é da dona Joaquina, que entrou no atendimento incosciente, respirando profundo, cercada de familiares nas suas aflições: o desespero do amor. E recapta na mente como ela já até conseguia se comunicar com seus familiares ao sair da emergência.
Aquilo era um pequeno passo para ela, um grande passo para dona Joaquina, e a certeza de uma ínfima parte de uma jornada longa e árdua que ainda se perpetuaria por longos e longos anos. 
A intensidade com que vivia a medicina, nunca foi antes como era agora, dedicando dias e noites, sendo cobrada, cumprindo obrigações, era por vezes estafante. Consumia alguns nervos. Esgotava muita calma.
Mas ela era feliz.

Ele se cansou de tudo aquilo. Embora odiasse ficar ali, só conseguia lembrar dos últimos plantões as contas que ele fazia entre um paciente e outro.  Pedia a si mesmo um pouco de paciência. Aguentava a dor. Os desrespeitos. As calúnias. Quanta ingorância! Precisava ficar, arranjar uma saída. Fazer um plano.
Mas nem sempre os planos vêm tão fáceis assim...

Prometer dedicar uma vida.
Pense comigo e me responda honestamente dentre todas as coisas que você conhece:

                                 ''O que valeria uma vida? ''

Difícil, não?

A Medicina é uma raiz que você próprío plantou lá.Primeiro pequena, exige cuidados.
Você cuida. Ela cresce.
Cresce até que toma o seu espaço, e quando vê, já tomou toda a terra e exige um vaso cada vez maior...
Cada vez mais temos que ser grandes. Maiores. Melhorar. Aprender com os erros. Que erros? Dedicar-se.
Entendo bem quando muitos médicos hoje pensam em qualidade de vida.
Nem todos estamos sempre prontos para tanta dedicação assim. São muitas exigências, cobranças. Existem certos graus e tipos de dedicação que cada área exige.
Sua vida não para, não espera suas graduações.
Sempre estará lá. As coisas continuaram acontecendo.
Os fatos vão desenrolar-se, as pessoas surgem, irão ou permanecerão.
Qual será o plano?
Um vez médico, para sempre médico.
Mas é importante lembrar.
É uma escolha.

Entendo os pacientes que reclamam de certos tipos de médicos. Médicos insatisfeitos, infelizes consigo mesmos. Médicos felizes, mas já impacientes em ter a mesma rotina, em responder as mesmas perguntas.
Mas é importante lembrar.
A Medicina é uma raiz que você próprío plantou lá.Então deixo vocês com ela....

Ela



Não é sempre cura, mas é alívio.
Não é sempre alívio, mas é conforto.
Não é sempre conforto, mas é verdade.
Não é sempre verdade, mas é caridade.
Não é sempre caridade, mas é justiça.
Não é sempre justiça, mas é bondade
Não é sempre bondade, mas é humana e imperfeita
Não é sempre humana, mas é profissão
Não é sempre  profissão, mas é sempre uma vida
Uma vida 
A zelar
Outra vida.
Quem por nós?
Uma escolha.
Viva bem 
Aquele quem 
Escolhe bem

sábado, 14 de agosto de 2010

O juramento

De todas as promessas que fiz, absolutamente, esta foi a mais difícil. Jurar.
Jurar que há de se ter honra com vidas.
Alguns podem até se admirar tanta dificuldade num princípio tão simples.
Proponho-me a explicar toda magnitude da profissão médica em meros textos.
Acredito que só assim , ouvindo pacientes e médicos, será possível melhorar a comunicação entre os dois lados de um mesmo objetivo.
A vida.

Os próximos textos, em ordem aleatória de pubicação, exemplificarão muito o que quero dizer.
Espero que eles ajudem pacientes, acadêmicos e outros profissionais, incluindo eu mesma, nessa jornada longa e árdua que é a arte de curar.

Eis aqui o juramento


"        Prometo solenemente dedicar a minha vida a serviço da Humanidade.
        Darei aos meus mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos.
        Exercerei a minha arte com consciência e dignidade.
        A saúde do meu paciente será minha primeira preocupação.
        Mesmo após a morte, respeitarei os segredos que a mim foram confiados.
        Manterei, por todos os meios ao meu alcance, a honra da profissão médica.
        Os meus colegas serão meus irmãos.
        Não deixarei de exercer meu dever de tratar o paciente em função de idade, doença, deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação político-partidária, raça, orientação sexual, condições sociais ou econômicas.
        Terei respeito absoluto pela vida humana e jamais farei uso dos meus conhecimentos médicos contra as leis da Humanidade.
        Faço essas promessas solenemente, livremente e sob a minha honra."






Aguardem...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Enfim, médica

Todo caminho que se preze tem um começo. Um dia estivemos bem no início. Demos o primeiro passo. Cercados de amigos, parentes e desconhecidos. No início achávamos que aquilo duraria uma vida. Na verdade, esses seis anos foram uma vida.


E antes mesmo de começar nós já sabíamos que não seria fácil. Nada que valha a pena é. Não foi fácil nem pra nós, nem para aqueles que nos rodeavam.

Eis o início. Tantos sentimentos juntos, medo e orgulho, dúvidas e fraquezas, crises e desafios.

Difícil resumir em algumas linhas tudo o que se passou, todas as experiências, quantas vitórias, e derrotas, quantas emoções e aprendizados.

Quem nos vê assim de fora, muitas vezes não entende o porquê somos assim meio diferentes. Nem melhores, nem piores: apenas diferentes. A gente não sente, nem sabe dizer direito como é que acontece, mas quando você se dá conta, sua vida é a medicina. E tão difícil é compreender como a medicina vai paulatinamente tomando conta de nossas vidas.

Os primeiros a sentir são os pais.

Lá se vão embora aquelas velhas horas em casa. Alguns deixam até suas casas. Difícil sair de casa, mudar de estado, começar controlar as contas, não ter mais a comida feita da mamãe quando se chega cansado...

E mesmo para aqueles que moram com os pais não deixa de ser difícil. A semana vai ficando cheia, as cobranças chegam, os compromissos aumentam tanto, que já não cabem de segunda a sexta. Então, os finais de semana vão sendo tomados, depois lá se vão os feriados. Passar as férias assistindo televisão em casa? Que férias?! Quando você vê já se foi uma semana. Já se foi outro mês. Já se foi o semestre. E assim, os anos vão passando...

Logo em seguida, são os amigos a sentirem tal ausência. E onde estamos nós nos aniversários? Nas farras, nos encontros? Afinal de contas, em que buraco cada um de nós se enfiava? Porque gastamos tanto tempo estudando para uma prova que só vai ser na semana que vem? Difícil de entender...

E para quem pensa que a presença física era tudo, mero engano. Quantas vezes estávamos lá, mas não estávamos. Quantas vezes nossas mentes estavam preocupadas com provas, trabalhos, estágios, ou qualquer outra coisa que nos ligasse ao outro mundo. O mundo da medicina.

Mas acreditem: nós não percebemos. E mesmo quando nos damos conta, nos deixamos levar. Afinal, todo acadêmico que se preze aprende a amá-la e respeitá-la.

Respeitar a medicina é muito mais do que simplesmente estudar. É se importar com vidas. É ter ética. É pensar no futuro. É fazer o bem. Não há ninguém que tendo um coração, não se renda a isso.

E a medicina vem, vai tomando conta de cada um dos aspectos de nossas vidas. Nos toma os pais, nos toma os amigos, nos toma os namorados e namoradas, nos toma o tempo. Mas nos dá muito também. Nos dá outros amigos, e esses sim você tem certeza de que são aqueles que podemos chamar de amigos de verdade. Nos dá o conhecimento, que aprendemos nunca ser suficiente. Nos dá força e maturidade para enfrentar qualquer desafio pela frente. A medicina nos invade e nos torna uma pessoa melhor. E vai assim, com a nossa permissão, invadindo a nossa vida.

Porque, afinal, a medicina é vida também.

E tal como a vida, tem seus altos e baixos. Tem suas quedas, tem suas glórias. Suas perdas e ganhos.

Não é fácil perder. Como é indescritível a dor ao perder aquele paciente! A sensação de impotência no ar. Como é difícil tirar as mãos daquele peito e dizer: fim. A dor de não poder fazer mais nada.

Nossos pacientes não escolhem local, data ou hora. Eles só surgem para nós. E cada paciente que se vai, acreditem, não estamos prontos. Desde o primeiro, dói como se fosse a último.

Ah, mas quão bom é ganhar. Ver alguém respirar por nossas mãos. Ajudar alguém a nascer. Se todos pudessem sentir como é ver uma vida ser mantida por qualquer simples ato. A sensação de dever cumprido.

Os motivos são muitos. Cada um de nós veio aqui por um caminho, e diversas foram as trilhas tomadas no decorrer da jornada. E ainda que os objetivos sejam diferentes, todos nós temos uma coisa em comum: nós ajudamos a vida.

Não foi fácil. Cada um com a sua dificuldade. Alguns a distância, a família e amigos. Alguns enfrentaram as saudades, de quem se foi ou até mesmo de quem ainda está por aqui. Alguns com as dificuldades materiais.

Enfrentamos uns aos outros, é verdade. Mas isso nos deu discernimento ou amigos. Enfrentamos burocracias, conveniências, derrotas, e isso tudo enquanto as nossas vidas pessoais não paravam de acontecer. E acreditem, nem sempre eram acontecimentos favoráveis.

Estivemos no meio de duas perdas. Perdas que vieram tão inesperadamente. E apesar de não ser um de nós, doeram para muitos como se fosse.

Caímos, tivemos derrotas e até hoje feridas difíceis de cicatrizar. Perdemos muitas e muitas vezes, e cada mínima derrota ou acontecimento, marcou o que somos hoje. É certo que em algum momento passou por nossas mentes a palavra desistir. Tentadora, lá, pairando em nós. Mas vos digo: a maior luta que enfrentamos foi contra nós mesmos. Contra os nossos medos, angústia, cansaço, nossos próprios desejos pessoais. Enfrentamos a nós pela medicina. E isso nos faz sairmos hoje melhores de como entramos.

Impossível comparar, menos ainda julgar as dificuldades de todos. Cada um de nós sabe todas as muralhas que tivemos que derrubar. Mas hoje temos a certeza da vitória. Pois Ele lá de cima só nos dá os obstáculos que podemos ultrapassar.

Esse é ciclo da vida. Cair e erguer-se. Perdas e ganhos. Nascer e morrer.

Opostos, é bem verdade, que em um extremo nos insatisfaz, e em outro nos entedia, mas, vida que é vida tem que ser assim, feita de diferentes experiências.

Hoje se completa um ciclo de nossas vidas. Uma fase que nos pareceu tão longa no início, e passou tão rápida aos nossos olhos agora. Tão distante antes, e agora tão perto. Tão desejada e ao mesmo tempo tão assustadora. Mas esta é apenas uma das diversas estradas que vamos trilhar.

Nem todas elas serão boas, é verdade. Nem tudo será vitória, nem tudo acontece do jeito que desejamos. As experiências aparecerão, mesmo se não quisermos lidar com isso.

Mas é por honra a essa vida, tão torta algumas vezes, tão bela em outras, é com essa vida louca e inesperada que escolhemos trabalhar. Nunca se esqueçam, agora meus caros colegas de trabalho, que independente daquilo que deixamos para trás, independente daquilo que vivemos agora, e, independente de nossas futuras escolhas ou do que está por vir, nós trabalhamos com a vida, que é e sempre será o bem mais valioso que um homem pode ter.

E é por isso, pais e amigos que passamos tantas horas ausentes. Perdoe-nos por todos os momentos não vividos, pelos abraços não dados, por todos os segundos dedicados a outrem. Não teremos nunca como recuperar o tempo que passou, é verdade. Mas tudo isso foi por uma causa nobre.

E para aqueles que não se acham prontos ainda, digo: nem sempre estaremos prontos para tudo que vier, nem sempre poderemos salvar todas as vidas que encontrarmos, nem sempre poderemos curar. Mas ajudar, consolar e servir, sim, poderemos sempre. Pois o coração nobre de um homem não é feito só pelas coisas que ele faz, mas também pela intenção de fazê-lo.

Sempre queriam fazer o bem. Sempre tentem fazer o bem. Nem sempre conseguiremos, é verdade, mas naquele dia em que se conseguir, aquela conquista valerá por todas as perdas que tivemos.

Se no fim de tudo isso, você me disser: salvei apenas uma vida. Mesmo assim, tudo isso terá valido a pena. Nunca se sabe qual vida será salva. Afinal, muitas pessoas mudaram o mundo com vida só.