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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Juramento III - O Médico e o Monstro


 Exercerei a minha arte com consciência e dignidade.
 Às 17h daquela tarde meio nublada o dia parecia normal. Tudo caminhava para a ordem natural das rotinas, sem planos de transgredir os planos. Nós sempre vivemos com planos, mesmo invisíveis, esperando que as coisas sempre sejam "iguais".
O sol estava à pino. Ainda havia muita areia para transportar do caminhão para a construção.
De repente o mestre de obras o chama.
"Oh Manél, tua esposa no telefone. Urgente."
Mas o que que essa mulher quer? A revolta durou menos de 5 segundos ao telefone. Tomou conta a de preocupação, e quem diria, o desespero.
Meu pai caído no chão. A mulher não sabia o que fazer.
Ligou para a ambulância. Mas cadê a droga da ambulância.
Ele pegou as coisas e saiu do trabalho. Tinha falado com o chefe. Sabe que morte o mestre não dizia que era desculpa. Tinha como atestar.
Mas quem ali tava falando de morte meu Deus!?
"Eu tô ficando doido!" pensou.
Correu o que podia, mas o ônibus não obedece as urgências da vida.
No meio do caminho a esposa liga informando o hospital em que ela estava. Hospital ? O "Matadouro" da cidade. Vamos ter fé em Deus.

Às 17 h da tarde dublada seu Manuel estava vivendo mais uma daquelas crises de terceira idade: sentia-se inútil. As pessoas já o tratavam como "caduca". Falavam alto e devagar com ele. Escondiam dele as coisas.  Paravam de tocar em certos assuntos quando ele se aproximava. Ele era teimoso. Não ia dar o brao a torcer assim facil não. Anos de trabalho nas costas. Esses moleques tem que me respeitar.
A nora veio. Ele nem sabia como tinha começado a briga. Só sentiu a dor. Aliás, só sentiu o começo dela. O resto da dor ainda iria, horas, dias depois, permanecer no ar, no lar, assim nas pessoas...
"Fui eu a culpada!" entre as lágrimas, o desespero, a dor, o arrependimento, a salada de sentimentos não adeixava manter o controle. Só conseguia chorar, e segurar o seu Manuel nas cordas da ambulância. O técnico olhava para ela com ar de consolo, enquanto se movia de um lugar ao outro, mas já tinha desistido de falar. Agir era mais confortável. "Tô fazendo o que posso, mas sem médico, esse velho não vai resisitir muito não ...."
O barulho da sirene da ambulância era o som mais confortante.

Sentado no estar da Unidade, o médico só ouvia uns bipes contínuos dos monitores da sala, o que já era comum aos seus ouvidos de intensivista. Ruim mesmo era quando batiam as portas ou o som das ambulâncias com sirenes altas.
O barulho da sirene da ambulância sempre fora o som mais desconfortante.

Seu Manuel entrou calado, mas todo o resto fez barulho por ele. Sirene. Maca. Porta. Povo. Faz. Pega. Ajuda. Acude. Leva. Portas.
O Caos.
O médico levanta. A nora corre, vai atrás do "Doutor".  Eles se encontram. 
E durante 3 segundos olham-se. 
Reconhecem seus papéis ali. Era tudo que ela queria.
"Doutor, salve ele por favor!"

...

Depois do Caos vem a calmaria.

Se querem saber o que aconteceu com o seu Manuel, digo: é o que menos importa. O destino do seu Manuel já estava traçado no momento em que ele cruzou a porta. Ou não? 
No momento em que ele caiu na sua casa.
Mas, o destino de todas as outras pessoas ali seria o mesmo? Aí sim digo: depende.
Você procura alguém que mude esse destino. 
Alguém que mexa naquela história que está para ser triste. 
Alguém que enxergue uma solução para o problema. Um salvador.
O "Doutor".
Indivíduo o qual pode sim, interferir nesse destino se o tempo, a doença, as condições permitirem isso.

Você entrega seu familiar, seu amor, você mesmo, na esperança de que ele mude. Informe. Acalme.

Perdoem-me a falta de otimismo, mas a expectativa é o primeiro grande passo de uma decepção.
Muitas pessoas esquecem que esse "doutor" é também um ser humano. Propenso à erros. Propenso à quedas, como você mesmo é.
É dificil exigir que todos os médicos estejam sempre dispostos a tudo todo o tempo. Que tenham dedicação integral à medicina. Que vivam por ela e para ela.
Esse é o Médico.
Entretanto, terá coragem qualquer pessoa no mínimo Humana a negar este apelo?

 "Doutor, salve ele por favor!"

Como não tentar? Como não fazer o mínimo pelo seu Manuel. Como não examiná-lo, não toca-lo, não verificar se existe uma chance para ele?
Acreditem, desses olhos que viram tão pouca coisa nessa vida, e ainda têm muito a aprender: já vi.
Já vi preguiça. Desânimo. Desprezo. Tá morto. Não pertube.
Esse é o Monstro.

Afinal,ninguém colocou uma faca no seu pescoço e te obrigou a fazer medicina.
Existem tantas outras profissões tão remuneradas quanto (nem ouso aqui citar a palavra bem), ou mais do que medicina.
Normalmente convivemos com essas duas faces frequentemente.
A medicina te leva ao topo e a lama. 
Às vezes no mesmo dia. 
Se existe uma empatia médico-paciente você é o Médico. Se um paciente discorda de algo que fazemos, já pensa no Monstro.
Não há como ser médico sempre. Por mais que se tente.
Temos instintos protecionais, éticos, que muitas vezes nos farão discordar de alguém para um "bem maior".
Entretanto, concordo com muitos pacientes que relatam os Montros soltos por aí.
Afinal, eu também sou uma paciente.
Num desabafo: Monstros vão fazer outra coisa.  Não sujem o nome da medicina, uma profissão tão bonita e encantadora. Corram sim, atrás da menina dos olhos da sua felicidade.
Pacientes: entendam o seu médico. Vejam o lado humano deles. Procurem não julgá-lo antes de conhecê-lo. Conversem com ele. Diálogo ajuda a resolver muitas discordâncias da medicina. 
Quem sabe assim muitos Manuels, João e Antonios sejam salvos. Talvez alguns doutores também. 
E ao médicos e monstros meu apelo:  coloquemos os Mostros no seu devido lugar. E que seja bem longe dos pacientes. 
Assim seja.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Juramento - Parte II


Darei aos meus mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos.










Chegamos aqui numa parte bem especial do discurso: os mestres.
Quantos de nós ao ler rapidamente esta frase não irá se perguntar."Mas como?! Como agradecer aquele professor chato, aquele que não dava aula, aquele que cobrava toda a materia sem dar recurso, aquele que nem cobrava?"

Difícil?
Eu diria, não.
Todo o segredo desta frase gira ao redor de uma única palavra, que vêm aos nosso olhos, de uma maneira especial agora

Mestre


Um Professor nem sempre é Mestre.
Hipócrates 377a.c já sabia disso.
Quando somos acadêmicos, não falo isso com nenhum sentido de inferioridade, somos um projeto em formação. A universidade não nos ensina tudo.
Nada nos ensina tudo.
Não saímos de lá prontos, como uma obra que tem prazo a ser cumprido em seis anos. Definitivamente não. Muitos acabamentos só serão feitos mais tarde, o que pode demorar muitas vezes meses, anos e até décadas a serem feitos.
Podem nunca ser feitos.
Sinceramente, quem faz medicina, na minha mera opinião, nunca está "acabado".
Eu mesma já fui muito chata, e ainda sou até hoje.
Mas sempre que vejo alguém mais novo, tento ter paciência e atenção com ele.
O acadêmico nada mais é do que a criança cuidada pelo Mestre.
Existem muitos tipos de crianças. 
Criança é peralta, travessa, manhosa às vezes, mas entre todas elas, há uma coisa em comum: formação.
Toda criança ainda é um objeto a ser moldado, um projeto da construção que está sendo levantada, e pode ter a influência de diversos projetos ao redor...
Toda criança que está empolgada com um novo brinquedo que gosta muito se exibe um pouco com ele, se orgulha de tê-lo. O Mestre não se aborrece, mas ri e lembra de como já foi criança um dia..



mestre que é Mestre não toma o brinquedo da criança, e sim ensina a criança a como utilizar o brinquedo.
mestre que é Mestre não quebra o brinquedo, e sim o guarda, explicando para a criança que o brinquedo não é a única coisa importante na sua vida e que sempre existirão outros valores a serem creditados.
mestre que é Mestre não julga a criança, muito menos a condena às mesmas leis dos adultos, e sim ensina-a com o seu erro e com o seu exemplo.
 mestre que é Mestre não grita nem bate na criança, e sim impõe seu respeito falando claramente e firme, e a faz entender as consequências dos seus atos.
 mestre que é Mestre não deixa de responder a criança a pergunta mais tola e abstrata do planeta, e sim ensina-a a procurar onde aprender...
mestre que é Mestre não deixa de ouvir a criança por acreditar que ela sempre estará errada, mas sim fica feliz pois terá a oportunidade de ensiná-la o que ele acha certo.
mestre que é Mestre não se aborrece com a criança, porque sabe a influência que ele possui nela e da importância de seus ensinamentos para o futuro.
 As crianças sempre foram a esperança.

Se alguma coisa deve mudar, que comecemos pelas bases. 

Tive muitos professores que me ensinaram conteúdo. Muitos que me deram provas, observações, notas. 
Muitos me ensinaram, ou me cobraram teoria e montaram certas bases.
Mas Mestres, foram menos. Não se ensina a ser Mestre. Deve-se ser e gostar de ser um.

Aos Mestres eu deixo aqui o meu muito obrigado.

Tenho certeza que os verdadeiros Mestres não se importaram com os nossos erros, assim como tenho a certeza e que nenhum de nós quer decepcioná-los.

Aos que não foram mestres, bem, esses eu agradeço também. Estes me ensinaram a ter uma referência contrária, à saber que existem dois lados de uma mesma moeda em tudo nessa vida. E como Hipócrates disse, mesmo eles eu devo o meu reconhecimento. 
Respeito, sim, como devemos respeitar qualquer ser humano. 
Autoridade e admiração, nem tanto. 
Isso não se impõe, e sim se conquista.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Juramento - Parte I : Princípio Básico

 Prometo solenemente dedicar a minha vida a serviço da Humanidade...




As pernas dela doem. Os olhos fecham e abrem lentamente. O cansaço é tamanho, que não ela nem mesmo consegue relaxar por completo.
Foi um dia corrido na emergência. Quase dois dias entre pacientes, caos e defesas.
Sim, muitas vezes temos que ser o juízo e a defesa da ocasião.
E entre as preocupações na vida e os afazeres e obrigações, você pode pensar que ela está infeliz.
Mas eu digo: não.
Cansada, bastante.
Mas ela não infeliz.
A única coisa que ela lembra destes dias é da dona Joaquina, que entrou no atendimento incosciente, respirando profundo, cercada de familiares nas suas aflições: o desespero do amor. E recapta na mente como ela já até conseguia se comunicar com seus familiares ao sair da emergência.
Aquilo era um pequeno passo para ela, um grande passo para dona Joaquina, e a certeza de uma ínfima parte de uma jornada longa e árdua que ainda se perpetuaria por longos e longos anos. 
A intensidade com que vivia a medicina, nunca foi antes como era agora, dedicando dias e noites, sendo cobrada, cumprindo obrigações, era por vezes estafante. Consumia alguns nervos. Esgotava muita calma.
Mas ela era feliz.

Ele se cansou de tudo aquilo. Embora odiasse ficar ali, só conseguia lembrar dos últimos plantões as contas que ele fazia entre um paciente e outro.  Pedia a si mesmo um pouco de paciência. Aguentava a dor. Os desrespeitos. As calúnias. Quanta ingorância! Precisava ficar, arranjar uma saída. Fazer um plano.
Mas nem sempre os planos vêm tão fáceis assim...

Prometer dedicar uma vida.
Pense comigo e me responda honestamente dentre todas as coisas que você conhece:

                                 ''O que valeria uma vida? ''

Difícil, não?

A Medicina é uma raiz que você próprío plantou lá.Primeiro pequena, exige cuidados.
Você cuida. Ela cresce.
Cresce até que toma o seu espaço, e quando vê, já tomou toda a terra e exige um vaso cada vez maior...
Cada vez mais temos que ser grandes. Maiores. Melhorar. Aprender com os erros. Que erros? Dedicar-se.
Entendo bem quando muitos médicos hoje pensam em qualidade de vida.
Nem todos estamos sempre prontos para tanta dedicação assim. São muitas exigências, cobranças. Existem certos graus e tipos de dedicação que cada área exige.
Sua vida não para, não espera suas graduações.
Sempre estará lá. As coisas continuaram acontecendo.
Os fatos vão desenrolar-se, as pessoas surgem, irão ou permanecerão.
Qual será o plano?
Um vez médico, para sempre médico.
Mas é importante lembrar.
É uma escolha.

Entendo os pacientes que reclamam de certos tipos de médicos. Médicos insatisfeitos, infelizes consigo mesmos. Médicos felizes, mas já impacientes em ter a mesma rotina, em responder as mesmas perguntas.
Mas é importante lembrar.
A Medicina é uma raiz que você próprío plantou lá.Então deixo vocês com ela....

Ela



Não é sempre cura, mas é alívio.
Não é sempre alívio, mas é conforto.
Não é sempre conforto, mas é verdade.
Não é sempre verdade, mas é caridade.
Não é sempre caridade, mas é justiça.
Não é sempre justiça, mas é bondade
Não é sempre bondade, mas é humana e imperfeita
Não é sempre humana, mas é profissão
Não é sempre  profissão, mas é sempre uma vida
Uma vida 
A zelar
Outra vida.
Quem por nós?
Uma escolha.
Viva bem 
Aquele quem 
Escolhe bem

sábado, 14 de agosto de 2010

O juramento

De todas as promessas que fiz, absolutamente, esta foi a mais difícil. Jurar.
Jurar que há de se ter honra com vidas.
Alguns podem até se admirar tanta dificuldade num princípio tão simples.
Proponho-me a explicar toda magnitude da profissão médica em meros textos.
Acredito que só assim , ouvindo pacientes e médicos, será possível melhorar a comunicação entre os dois lados de um mesmo objetivo.
A vida.

Os próximos textos, em ordem aleatória de pubicação, exemplificarão muito o que quero dizer.
Espero que eles ajudem pacientes, acadêmicos e outros profissionais, incluindo eu mesma, nessa jornada longa e árdua que é a arte de curar.

Eis aqui o juramento


"        Prometo solenemente dedicar a minha vida a serviço da Humanidade.
        Darei aos meus mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos.
        Exercerei a minha arte com consciência e dignidade.
        A saúde do meu paciente será minha primeira preocupação.
        Mesmo após a morte, respeitarei os segredos que a mim foram confiados.
        Manterei, por todos os meios ao meu alcance, a honra da profissão médica.
        Os meus colegas serão meus irmãos.
        Não deixarei de exercer meu dever de tratar o paciente em função de idade, doença, deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação político-partidária, raça, orientação sexual, condições sociais ou econômicas.
        Terei respeito absoluto pela vida humana e jamais farei uso dos meus conhecimentos médicos contra as leis da Humanidade.
        Faço essas promessas solenemente, livremente e sob a minha honra."






Aguardem...