segunda-feira, 22 de março de 2010

A morte

Eu sou aquela que é o seu pior pesadelo. O seu medo oculto.

Eu sou o seu maior temor, a sua maior revolta, a sua maior saudade.
 Eu sou aquela que te faz sentir saudade.
 Aquela que te faz pensar no tempo.
Eu sou o tempo,o pouco que resta a você do que fazer com ele.
Infelizmente, eu sou o seu maior esquecimento.
Aliás, não sei nem como você consegue esquecer disso.
Os humanos têm uma coisa assim, de esquecer, de deixar pra lá as coisas com que não sabem lidar muito bem...
Tão tolinhos!
É, humanos são assim mesmo. Se acham a vida inteligente do universo. Quanta inteligecia têm em enganar a si mesmo?
Vocês vivem fazendo isso.
No final, eu vencerei.
Sempre.
No dia em que isso não acontecer, este mundo deixará de ser purgatório e será promovido à inferno.
Eu só cumpro a minha função no mundo.
Então,não venha me culpar se você não aproveita seu tempo, certo?
Desista de me sabotar. E talvez você seja um daqueles poucos que ainda conseguem empatar o jogo dizendo: "Aproveitei tudo o que podia".
Não pense que fico triste ouvindo isso.
Pelo contrário, fico feliz. Faz o meu trabalho ser menos doloroso para você.
Pena mesmo é tirar um ser pensante do mundo.
às vezes lamento, estendo o prazo, pra ver se ele consegue dar algum exemplo e convencer mais alguns, mas nem sempre dá.
Obedeço ordens superiores.
Então, o que você vai fazer do seu tempo agora?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Primeiros pacientes

Antes de me formar sempre me perguntava qual seria o meu primeiro paciente. Imaginava seu rosto.

Imaginava se teria muitos problemas, a até onde eu poderia ajudá-lo.  E até arriscaria um super diagnóstico.


Se me perguntassem hoje, eu tristemente iria dizer: “não lembro”.  Nem sei quantas consultas, nem todos os diagnósticos. A medicina é assim, invasora. Não que eu não goste de me sentir invadida as vezes.

Quer saber coisas das quais não esquecerei? O primeiro paciente que perdi. Aliás, a primeira paciente.  Ela, senhora distinta, seus 70 e poucos anos. No salão de beleza, num dia da semana. Ela era apenas uma senhora a fazer seus cabelos, e eu apenas uma estudante, indo pro cinema e indo visitar a mãe no trabalho. No salão de beleza.

Eu era um nada. Eu era o nada. Terceiro ano de faculdade, eu nem tinha ainda peso nas costas. Eu nem sabia o que era isso.

Ela parou. Foi assim de lado, se jogando para o chão, se despedindo da vida a cada segundo que se passava.

E eu, um nada, no terceiro ano, encontrei o meu peso nas costas.

Fui chamada para interceptá-la. Para lutar por ela. O nada andou em sua direção, dois segundos e um toque, o nada já sabia o que estava acontecendo. Ela parou, nos meus braços, e eu nem sabia o que era isso.
Mais alguns segundos para eu me tocar que tinha de fazer alguma coisa. “Mas o que, meu Deus?”. Olhei para meus dois amigos, estudantes, que me acompanhavam, e não vi olhos. Vi um espelho de tudo aquilo que se passava dentro de mim.

Abrir a boca, respirar por ela, colocar as mãos em seu peito, um, dois, três... Ser o coração de alguém não é uma tarefa muito fácil...

Até me interromperam. Um ser se disse médico. Mandou transportá-la de lá.  Eu sabia que  aquilo estava errado. Eu sabia que alguma coisa estava errada. Mas eu era apenas uma estudante de medicina.  A estudante, agora com o peso nas costas.

O fim já se sabe. É o fim, e basta dizer isso.

A primeira paciente que perdi se foi, e eu nem era médica, muito menos ela era a minha paciente. Contudo, o que ela me deu, ficou em mim para sempre: o peso nas costas.

Todo médico que se preze o carrega. Com o tempo ele fica mais fácil de carregar. Com o tempo você se torna uma pessoa mais forte. Mas no fundo, todo bom médico sabe bem do que eu estou falando.

 Devem estar se perguntando: “Se é tanto peso assim, porque fazer medicina?” Eu bem vos digo.
A primeira paciente que ganhei também não era minha. Eu também era uma mera acadêmica, desta vez no quinto ano. Demorei, dois anos, com o peso nas costas, de tal forma que minha coluna já estava ficando torta. Ela chegou na hora certa.

Com 37 semanas, 53 centímetros. Eu fui a primeira pessoa que ela viu no mundo. Fui a primeira pessoa que viu seu respirar, a primeira a saber que ela estava viva, e bem.

E esse dia eu também não esqueço.

No fundo acho que todo médico, só se torna um médico de verdade, no dia em que ganha o seu precioso peso nas costas.

Dói um pouco, incomoda, as vezes, mas é ele que nos faz mais fortes, que nos lembra que estamos vivos e que temos essa missão no mundo.

Seja em qualquer profissão, o importante mesmo é descobrir qual a sua função no mundo.

Se você não concorda com isso, bem, então, viva na sua bolha. Sót não se esqueça que um dia ela pode estourar.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Enfim, médica

Todo caminho que se preze tem um começo. Um dia estivemos bem no início. Demos o primeiro passo. Cercados de amigos, parentes e desconhecidos. No início achávamos que aquilo duraria uma vida. Na verdade, esses seis anos foram uma vida.


E antes mesmo de começar nós já sabíamos que não seria fácil. Nada que valha a pena é. Não foi fácil nem pra nós, nem para aqueles que nos rodeavam.

Eis o início. Tantos sentimentos juntos, medo e orgulho, dúvidas e fraquezas, crises e desafios.

Difícil resumir em algumas linhas tudo o que se passou, todas as experiências, quantas vitórias, e derrotas, quantas emoções e aprendizados.

Quem nos vê assim de fora, muitas vezes não entende o porquê somos assim meio diferentes. Nem melhores, nem piores: apenas diferentes. A gente não sente, nem sabe dizer direito como é que acontece, mas quando você se dá conta, sua vida é a medicina. E tão difícil é compreender como a medicina vai paulatinamente tomando conta de nossas vidas.

Os primeiros a sentir são os pais.

Lá se vão embora aquelas velhas horas em casa. Alguns deixam até suas casas. Difícil sair de casa, mudar de estado, começar controlar as contas, não ter mais a comida feita da mamãe quando se chega cansado...

E mesmo para aqueles que moram com os pais não deixa de ser difícil. A semana vai ficando cheia, as cobranças chegam, os compromissos aumentam tanto, que já não cabem de segunda a sexta. Então, os finais de semana vão sendo tomados, depois lá se vão os feriados. Passar as férias assistindo televisão em casa? Que férias?! Quando você vê já se foi uma semana. Já se foi outro mês. Já se foi o semestre. E assim, os anos vão passando...

Logo em seguida, são os amigos a sentirem tal ausência. E onde estamos nós nos aniversários? Nas farras, nos encontros? Afinal de contas, em que buraco cada um de nós se enfiava? Porque gastamos tanto tempo estudando para uma prova que só vai ser na semana que vem? Difícil de entender...

E para quem pensa que a presença física era tudo, mero engano. Quantas vezes estávamos lá, mas não estávamos. Quantas vezes nossas mentes estavam preocupadas com provas, trabalhos, estágios, ou qualquer outra coisa que nos ligasse ao outro mundo. O mundo da medicina.

Mas acreditem: nós não percebemos. E mesmo quando nos damos conta, nos deixamos levar. Afinal, todo acadêmico que se preze aprende a amá-la e respeitá-la.

Respeitar a medicina é muito mais do que simplesmente estudar. É se importar com vidas. É ter ética. É pensar no futuro. É fazer o bem. Não há ninguém que tendo um coração, não se renda a isso.

E a medicina vem, vai tomando conta de cada um dos aspectos de nossas vidas. Nos toma os pais, nos toma os amigos, nos toma os namorados e namoradas, nos toma o tempo. Mas nos dá muito também. Nos dá outros amigos, e esses sim você tem certeza de que são aqueles que podemos chamar de amigos de verdade. Nos dá o conhecimento, que aprendemos nunca ser suficiente. Nos dá força e maturidade para enfrentar qualquer desafio pela frente. A medicina nos invade e nos torna uma pessoa melhor. E vai assim, com a nossa permissão, invadindo a nossa vida.

Porque, afinal, a medicina é vida também.

E tal como a vida, tem seus altos e baixos. Tem suas quedas, tem suas glórias. Suas perdas e ganhos.

Não é fácil perder. Como é indescritível a dor ao perder aquele paciente! A sensação de impotência no ar. Como é difícil tirar as mãos daquele peito e dizer: fim. A dor de não poder fazer mais nada.

Nossos pacientes não escolhem local, data ou hora. Eles só surgem para nós. E cada paciente que se vai, acreditem, não estamos prontos. Desde o primeiro, dói como se fosse a último.

Ah, mas quão bom é ganhar. Ver alguém respirar por nossas mãos. Ajudar alguém a nascer. Se todos pudessem sentir como é ver uma vida ser mantida por qualquer simples ato. A sensação de dever cumprido.

Os motivos são muitos. Cada um de nós veio aqui por um caminho, e diversas foram as trilhas tomadas no decorrer da jornada. E ainda que os objetivos sejam diferentes, todos nós temos uma coisa em comum: nós ajudamos a vida.

Não foi fácil. Cada um com a sua dificuldade. Alguns a distância, a família e amigos. Alguns enfrentaram as saudades, de quem se foi ou até mesmo de quem ainda está por aqui. Alguns com as dificuldades materiais.

Enfrentamos uns aos outros, é verdade. Mas isso nos deu discernimento ou amigos. Enfrentamos burocracias, conveniências, derrotas, e isso tudo enquanto as nossas vidas pessoais não paravam de acontecer. E acreditem, nem sempre eram acontecimentos favoráveis.

Estivemos no meio de duas perdas. Perdas que vieram tão inesperadamente. E apesar de não ser um de nós, doeram para muitos como se fosse.

Caímos, tivemos derrotas e até hoje feridas difíceis de cicatrizar. Perdemos muitas e muitas vezes, e cada mínima derrota ou acontecimento, marcou o que somos hoje. É certo que em algum momento passou por nossas mentes a palavra desistir. Tentadora, lá, pairando em nós. Mas vos digo: a maior luta que enfrentamos foi contra nós mesmos. Contra os nossos medos, angústia, cansaço, nossos próprios desejos pessoais. Enfrentamos a nós pela medicina. E isso nos faz sairmos hoje melhores de como entramos.

Impossível comparar, menos ainda julgar as dificuldades de todos. Cada um de nós sabe todas as muralhas que tivemos que derrubar. Mas hoje temos a certeza da vitória. Pois Ele lá de cima só nos dá os obstáculos que podemos ultrapassar.

Esse é ciclo da vida. Cair e erguer-se. Perdas e ganhos. Nascer e morrer.

Opostos, é bem verdade, que em um extremo nos insatisfaz, e em outro nos entedia, mas, vida que é vida tem que ser assim, feita de diferentes experiências.

Hoje se completa um ciclo de nossas vidas. Uma fase que nos pareceu tão longa no início, e passou tão rápida aos nossos olhos agora. Tão distante antes, e agora tão perto. Tão desejada e ao mesmo tempo tão assustadora. Mas esta é apenas uma das diversas estradas que vamos trilhar.

Nem todas elas serão boas, é verdade. Nem tudo será vitória, nem tudo acontece do jeito que desejamos. As experiências aparecerão, mesmo se não quisermos lidar com isso.

Mas é por honra a essa vida, tão torta algumas vezes, tão bela em outras, é com essa vida louca e inesperada que escolhemos trabalhar. Nunca se esqueçam, agora meus caros colegas de trabalho, que independente daquilo que deixamos para trás, independente daquilo que vivemos agora, e, independente de nossas futuras escolhas ou do que está por vir, nós trabalhamos com a vida, que é e sempre será o bem mais valioso que um homem pode ter.

E é por isso, pais e amigos que passamos tantas horas ausentes. Perdoe-nos por todos os momentos não vividos, pelos abraços não dados, por todos os segundos dedicados a outrem. Não teremos nunca como recuperar o tempo que passou, é verdade. Mas tudo isso foi por uma causa nobre.

E para aqueles que não se acham prontos ainda, digo: nem sempre estaremos prontos para tudo que vier, nem sempre poderemos salvar todas as vidas que encontrarmos, nem sempre poderemos curar. Mas ajudar, consolar e servir, sim, poderemos sempre. Pois o coração nobre de um homem não é feito só pelas coisas que ele faz, mas também pela intenção de fazê-lo.

Sempre queriam fazer o bem. Sempre tentem fazer o bem. Nem sempre conseguiremos, é verdade, mas naquele dia em que se conseguir, aquela conquista valerá por todas as perdas que tivemos.

Se no fim de tudo isso, você me disser: salvei apenas uma vida. Mesmo assim, tudo isso terá valido a pena. Nunca se sabe qual vida será salva. Afinal, muitas pessoas mudaram o mundo com vida só.

sábado, 5 de dezembro de 2009

O sebo do Amadeu









Sebo Memória
Rua Cristiano 488, perto da Teodoro Sampaio
São Paulo - Brasil











Nunca entendi a compulsão que certas pessoas têm pelo novo, em todo o significado tecnológico que a palavra possui.

Talvez certas pessoas achem meio contráditório, alguém que posta textos em blogs ter uma opinião tão adversa...

No fundo do ego, quem não o é contraditório?

Muitos pensariam consigo mesmo, "É a culpa daquela coisa que não se entende bem, mas que insistimos em denominar de globalização." Aprendi a palavra na sétima série. Até hoje, ainda não tenho certeza do significado.

O novo seduz, nos conduz ao prático e à um mundo de oportunidades. Como aquele que andava por um corredor estreito e pouco iluminado vê ao caminho uma luz, a segue, e descobre um salão amplamente iluminado com diversos novos corredores e portas diferentes ao redor.

Claro, muitas destas portas não são nem de perto comuns à realidade.

Todavia, quem quer viver sempre no mundo real?

O Novo é assim, atraente, e muitas vezes necessário no mundo Contemporâneo. A moça nova e gostosa pela qual todos os homens se sentem atraídos...

E aí lembramos do Velho. O mundo dos livros, dos papéis, dos registros. O mundo das contas, do dinheiro, das coisas táteis para serem consideradas realidade.

"Que coisa mais cafona e desnecessária!" pensa o garoto. O garoto não entende, como aquilo tão "desprático", que poderia ser facilmente substituído por algo mais simples com muitos gigabytes, pode ainda ter alguma função no mundo!

Hoje, eu e uma amiga visitamos um sebo.
- Grande coisa - fala o garoto - Tem milhares pela cidade de São Paulo.
- Compra os livros pela internet! - diz o amigo dele - Deixa eu te mostrar o site, oh...

É verdade... Existem milhares deles... Entretanto, esse têm um ar um tanto especial. Livros do chão ao teto, literalmente. Corredores apertados, do tipo que você é obrigado a pedir licença para o visitante desconhecido. Uma estante apinhada de todos os tipos de discos em vinil. Você mesmo, pega a escada e procura as suas raridades, se quiser. Cheiro de livros. Cheio de livros. Tudo isso ao som de uma boa música clássica.

O acervo é impresionante, mesmo para aqueles não tão conhecedores dos nomes literários mundiais, como eu. É só pedir, que o dono do lugar se enfia corredores adentro, desaparece por alguns segundos e volta com umas três cópias de diferentes edições do seu pedido.

Alguns devem estar se perguntando: propaganda? Os objetivos aqui não têm relação comercial. A proposta do site é esta (vide texto A proposta), mostrar visões diferentes. Saber o que existe de diferente. O belo pelos olhos do outro.

Talvez tenha sido a alma do lugar que me chamou a atenção. Alma de sebo. Verdadeiro.

Tirei várias fotos, é claro. Temos que utilizar da tecnologia para bons frutos. Registro. Memória. Muito mais do que meras "tralhas" ocupando um espaço no mundo.

"Tralhas" têm seu valor, garoto. Não vamos confundir os conceitos. Não é preciso sair por aí armazenando coisas inúteis dentro de cada buraco de sua casa. Não sou a favor de energia estagnada. Nada disso.

Certas coisas se guarda, não pelo que são em si, mas por tudo o que significam, ou significaram para nós.

Como uma senhora, com certas rugas, que não pode ser tão atraente à primeira vista, pode guardar um mundo de e experiências que a moça ainda está por descobrir...

Tenho medo das novas gerações. De que fiquem perdidas nas maravilhas tecnológicas e percam o verdadeiro valor que o passado possui em nossas vidas.

O Passado é o conjunto de tudo aquilo que aconteceu e formou o que somos hoje.

Somos nós.

De uma maneira diferente e antiquada, mas somos nós.

E ninguém merece perder a si mesmo.

Em nada.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Infância

Quem é nascido da época de 80, vai lembrar bem o que digo...

O que faz com que alguma coisa se torne inesquecível? Vejamos...

Quem nunca se perguntou na primeira vez que escutou:
"Versão Brasileira Herbert Richers?". Ah, vai dizer que nunca imaginou "Quem diabos é Herbert Richers?"

Quem não se lembra: "Erik talvez não saiba, mas seu avô tem problemas auditivos.."

Quem nunca quis ver qual a face do Lombardi?

Quem nunca assoprou uma fita do Mario Bros? E quem ainda não acha que aqueles sopros funcionavam?

Quem um dia não acreditou na pureza da Xuxa?

Quem nunca quis ver a cara da vovó do Muppets Babies?

Acho que quando deixamos de frequentar "quinzolas" e passamos a ser convidados à formaturas e casamentos, e quando alguns símbolos começam a desaparecer, bem acho que começo a finalmente encarar: estamos ficando "velhos"...

Se me perguntarem, tenho medo? Digo, sinceramente: não. Pois a mesma maneira que coisas antigas se vão, permanecem, assim, marcadas na memória para todo o sempre de nossa existência. E da mesma maneira, se algo vai, é sinal de que algo novo está por vir.

Medo do desconhecido, todos têm. Entretanto, deixar de acreditar que algo de tudo o que está chegando será bom, isso sim é que me dá medo.

Post pequeno, sem mais inspiração...
Tenham um bom dia.
=)