domingo, 28 de junho de 2020

Embaraçada


Uma semente é

Um pingo de gente
Que subitamente
Brota assim, valente
Mexe de repente
Com a vida da gente


Que tu tens em mente?
Uma semente é
Um pingo de gente
Pedaço vidente
Que cresce no ventre
De um ser complacente
Uma vida na gente


E o que você sente?
Uma semente é
Um pingo de gente
Que ainda ausente
Preenche pungente
O que inconstantemente
Na vida, dá gente
….

Como és insistente!
Uma semente é
Um pingo de gente
Que é só um pingente
Pedaço de utente
De todo um continente
De vida da gente


O que será pela frente?
Uma semente é
Só um pingo de gente
Que muda o ambiente
Mas deixa contente
Até o mais vigente
Temor penitente


Quem te deu patente?
Uma semente é
Um pedaço de gente
Que intermitente
Salpinga clemente
Todo reluzente
Nos faz comovente


Que luz renitente!
Uma semente
É pingo de gente
Que reúne parentes
Ou revolve potente
Os erros que a mente
Recorda impotente


Serei eu repetente?
Uma semente é
Um pingo de gente
Em si prepotente
Que se faz repelente
Do mal à vigente
….

Serás sobrevivente?
Uma semente é
Um ser
Uma mente
Um pingo
de Nova gente
Uma Muda
Mudo
No mundo
Que muda
Para sempre
A vida da gente

Poema premiado na Jornada literária Sobrames 2019

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Dia de página - Por que escrever ?




Introduzindo meu ser neste mundo novo do Medium.

Parece que não basta ser escritor. Millennials sempre precisam se atualizar.

Mundo contemporâneo. Vida contemporânea. Minha velha alma, sim porque eu sou uma escritora velha, que gosta de papéis e cartas, e mais ainda de papéis de carta. Aparentemente lápis e papel já não é mais o suficiente. Nem eficiente.

Para ser escritor tem que ter mais do que isso. Pincel e tinteiro já não cabem. Precisamos de dedos digitais, de reconhecimento facial, de redes sociais. Um blog, veja minha cara, já não basta. É preciso ter blog, Instagram, um site, uma página no Facebook e amigos influentes nas redes sociais.

Cansa.

Sabe por quê? Porque eu gosto mesmo é de escrever.

Concordo com as palavras de Rilke:

“O poeta precisa de solidão.”

É na solidão que ele se encontra. Cada vez mais me convenço disso.

É no fundo de nós mesmos que encontramos nossa arte.

Quero crer que encontrando minha verdadeira arte, encontraria um dia meu verdadeiro público.

Público, um receptor de antena, saber que ele existe. Sabe aquela coisa de se convencer que tem gente no mundo que pode ver um pouco mais do mundo com você? Com você. Não como você. É tipo isso.

O meu círculo social está bem distante disso.

Não é falta de amigos. Eles são vários e lindos. São as visões de mundo diferentes.

Publiquei meu primeiro livro. Uma realização. Um carinho especial com cada palavra. 

Meu círculo talvez não tenha compreendido. A maioria acha bonito, algo até nobre, legal ter um livro, mas soa distante e admirável e até questionável em certo ponto.

Tive poucos retornos. Poucos e bons. Mas entender a profundidade que significou tudo isso, acredito que foi para poucos. 

Compreender mesmo o que significa. Não faz parte do hall da vida da maioria deles. E eu compreendo.

Não sinto raiva. Não é isso. É só uma incompletude. Uma ânsia de partilhar e compartilhar com afins. Só isso. 

É preciso amar a arte. Amar a escrita, a poesia, o desenho, a música, a arte que for; essa visão de vida que temos.

É preciso ser perseverante. Amar esse modo mágico de olhar a vida. Agarrar-se nele como um caranguejo insano. Esse modo mágico, pode parecer errado, se você está no meio da plateia sã. Pode parecer que você é o cego. Mas prefiro pensar que eu sou a esposa do médico do Ensaio de Saramago. Verei coisas ruins e boas, o pior e o melhor do homem. Não porque sou melhor que qualquer outros. É só que eu tenho um olho mágico. O olho da arte. E vejo imagens mágicas. E escrevo o que vejo. E vejo o que escrevi e reescrevo. Nesse looping constante que é respirar a vida por palavras. 

É preciso amar seu modo de ver a vida.

Eu preciso amar a Iza, a bela, a escritora, o tudo que sou e que vejo.

Preciso confiar que essa visão é o que me mantém neste mundo. 

É o meu refúgio, o meu eu interior que só quer fazer parte da minha vida.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Renascer


Hora de ressuscitar!
São 33 anos. Estamos em 2020. Em meio a uma pandemia.

Não tenho uma Newsletter (ainda), mas vou reativar o blog, que coisa já arcaica nesse mundo acelerado e louco em que vivemos. 

Hoje, 15 de Junho de 2020, nos últimos 2 dias dos meus 33 anos de casta vida, publiquei meu primeiro livro. 

Não está perfeito. Não é o melhor livro do mundo. 
Mas é meu, meu sonho, minha escrita pronta para sair. 

Hoje, renasço, porque uma parte de mim, a escritora, nasce e ganha espaço no mundo fora de mim. 

Centralizarei nesta plataforma a minha Newsletter e os recados a um público que há de vir. 

Quem chegou até aqui, que venha por bem. 
Que seja bem vindo!



Segue o link para o livro na Amazon:


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Puxa-sacos

T
enha medo dos puxa-sacos. 
Hoje, na fila do almoço, me deparo com um casal de prováveis colegas de trabalho. Uma morena bonita e bem aperaltada, e um jovem barbudo com o look clássico de escritório, conversando aquelas fofocas de escritório. 
-"Quando cheguei, falei para ele que ele era muito bom! Disse que já tinha ouvido falar dele, que ele era sensacional... 
-"Ah, claro! Tipo, 'Você é o cara!' - concordou a menina
-"Meu, eu insuflei tanto o ego do cara, que ele ficou todo feliz, depois deixou eu fazer ...." 
Me recusei a ouvir o resto, senão eu ia vomitar ali no buffet, antes mesmo de enfiar qualquer comida à boca. 
Lembrei de muitas, inúmeras vezes em que presenciei situações parecidas. 
Entendo que na sociedade moderna as relações interpessoais, principalmente as profissionais podem ser delicadas e devem obedecer às regras de hierarquia. 
Não sou contra o respeito. Ou as regras de boa convivência, coisa que confesso, tenho aprendido no decorrer destes duros anos. 
Entretanto, aquele puxa-saquismo descomedido e desnecessário, o qual identificamos de longe as mazelas falsas da personalidade que vos fala, que em nada combinam com o que sai daquela boca, esse sim, não tenho medo: tenho pavor. Afinal, a hipocrisia é o primeiro passo para o desvio de caráter. E todo caráter torto começa com uma mentira reta. 
Na verdade, o momento do puxa-saquismo é sempre bem bizarro. Quem está de fora e vê sente-se entranho, sem lugar. Acostumei-me até com essas situações. Contudo, hoje foi diferente. Eu via o ar de triunfo do puxa-saco, a vitória elegante do Coringa, e devo dizer que trouxa mesmo é o tolo do ego inflado. Aqui o chamarei de Trouxa.
Por isso, amigos, tenham medo dos puxa-sacos. 
Eles são por vezes traiçoeiros. Estão ali, não porque querem na maioria das vezes, mas por não poder estar em outro lugar. Muitos nem querem um Trouxa mandando neles. Muitos não estão nem aí pro Trouxa. Só pensam no seu proveito e deleite próprios. Só defendem os seus próprios interesses. 
Não tenha só medo dos puxa-sacos, exatamente. Tenha medo de você perante a eles. 
Os puxa-saco não mostram os seus defeitos. Não te desafiam. Não te intrigam. Não te forçam a evoluir. Não forçam o seu melhor. 
Eles te enganam, e te ajudam a enganar a si mesmo cada vez mais, fingindo assim que está tudo bem. E depois pelas costas destilam seu veneno, com ar de triunfo. 
Por fim, tenha dó dos puxa-sacos. Eles nem personalidade têm. Ainda não se definem, não tem opinião própria, a não ser a do Trouxa, são Camaleões que mudam de cor e de figura de acordo com a situação que se é imposta, e se camuflam muitas vezes perante as paisagens mais inóspitas que se pode ter.
Afinal, cercado de puxa-sacos, você nunca vai saber quando aquele elogio ou aquela admiração é sincera e verdadeira
Vamos, então, colocar os puxa-saco nos seus devidos lugares: na parede da cozinha pra quando você estiver precisando de uma sacola plástica. 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Cadê meu pai?

Dia das mães 




Oficialmente, cresci sem pai. Se me perguntarem se senti falta: sim. 
Tão quão era a minha revolta na minha meninice, que um dia, ainda criança no colégio , numa sessão de venda de fotos dos dias dos pais, eu, mesmo sem ter um pai vivo, fui lá bater a foto, homenageando alguém que eu nunca conheci, mas que tenho a certeza, ainda é um dos anjos que passeiam me guiando por aí. Levei uma bronca, afinal de contas, eram tempos difíceis, os cruzeiros não vinham fácil, e saiam mais rápido ainda do bolso. Uma de minhas mães ficou furiosa, mas quando me questionou o motivo, eu disse de alto e bom tom: "cansei de sentir inveja das outras crianças. Afinal, eu quero ter um pai também."
Como eu estava enganada...
Que sã justificativa a mente de uma criança de 10 anos pode ter? 
E como um daqueles momentos mágicos que acontece na sua vida, quem me despertou foi a professora, alguns dias depois, com as belas palavras, das quais eu jamais esquecerei: "Mas você tem mais de uma mãe! E elas são mãe e pai também."
Era verdade. 
O que me faltou de pai, bem o tive em muitas mães.  Mais do que duas, quatro ou até cinco se você for contar os detalhes. 
Cada uma cuidava de um aspecto. 
Uma financeiro, outra do lar, outra de nós, outra da escola, outra dos amigos.
E uma e outra, assim, revezavam as horas. 
Hora de acordar na madrugada e fazer o café da manhã quando nem havia sol ainda. 
Hora de lavar a louça, limpar a mesa, vestir o uniforme. De fazer a trança de raiz e puxar até a testa o cabelo enrolado. De fazer o lanche. 
Hora de dirigir quilômetros até o colégio. 
Hora de buscar no colégio, sem se atrasar para não ter medo de eu achar que seria esquecida. De brigar pela roupa suja do recreio. Do dever de casa. Dos livros. 
Hora do almoço. De lavar a louça. De aprender a cuidar da casa. Do dever de casa. Do café da tarde. 
De cuidar dos bichos. 
Hora de brincar. De quebrar o dente na grade. De separar a briga dos irmãos. De levar umas palmadas. De gritar por silêncio. 
Hora da cama feita. De fazer as contas após todo mundo ter ido dormir. De ser a última a apagar a luz da casa. Hora de dormir. 
Hora de acordar cedo mesmo sendo domingo. De comer tapioca. De pegar o jornal. De ver seriado na TV aberta que nunca vai ter o final. 
Hora de acordar para a vida. Se arrumar para pegar o ônibus para ir sozinha para a escola, orgulhosa disso. De carregar seus próprios livros. De cansar de andar em ônibus lotado.
Hora do primeiro convite de 15 anos. 
De ir para os 15 anos das amigas. De chegar antes das 1h da manhã. De sentir vergonha por a mãe estar indo buscar tão cedo na balada. De esperar acordada, mesmo dizendo que vai dormir, até você chegar fazendo barulho do cadeado ou na porta.
Hora dos seus próprios 15 anos. De fazer escova e maquiagem. De dizer que você é a lindo(a). Hora de pensar em homens. Hora de se apaixonar. Da dor de cotovelo. De ficar apreensiva com que os homens podem fazer com você. 
Hora de apresentar os amigos. Levar a amiga em casa. Hora dormir na casa da amiga. Hora de falar de sexo.
Hora de aguentar a raiva. Hora de segurar a raiva. De usar o termo "aborrecente". De brigar, sim, brigar mesmo. Hora de querer que você volte a ser criança. Hora de se sentir mal por estar pensando isso. 
Hora de escolher o futuro. Hora de ler as cartas, para ver se ele promete. De dar força, qualquer seja a sua decisão. De fazer mais contas, baseado no que você diz o que vai fazer, mesmo sem ter a mínima certeza. Hora de ficar feliz quando você consegue. De querer chorar quando você está triste. De não saber o que fazer. 
Hora de prestar contas. De abrir uma conta.  De ter o primeiro cartão de crédito.De cuidar do dinheiro. De parar de gastar dinheiro.
Hora de sair de casa. 
Hora de morrer de medo do futuro. 
De chegar em casa cansado e ter que fazer sua própria comida. De lavar a própria roupa. De esquecer a roupa na máquina de lavar. De descobrir que o copo sujo no quarto ainda está lá, e não vai sair, pois só você pode tirar. 
Hora de sentir saudade. De chorar no telefone. De querer voltar a ser criança. 
Hora de acordar cedo! De fazer o café. De se arrumar para ir ao trabalho. De lavar a louça, de novo, a bendita hora de lavar a louça! Hora de dirigir para o trabalho.
Hora de chegar em casa sem hora. De desistir do jantar e só comer um lanche. Nem vou falar da louça...
Hora de fazer as contas. De ficar apreensivo com as contas. De pedir dinheiro. De emprestar os reais que não estão sobrando. De dar o dinheiro que você não tem. 
Hora de voltar para casa. 
Hora de te receber de novo em casa, como se o tempo não tivesse passado e como se aquelas muitas horas não tivessem existido, entre todas que você esteve distante.
Hora de esperar você chegar. De acordar de madrugada para dar comida. De acalmar as cólicas. De tomar remédio. De ver você crescendo. De levar você pra escola. 
Hora de escutar a professora: 
"A sua mãe é mãe e pai também...."
Se me perguntarem se meu lado "macho alfa" deixou de ser evoluído, eu digo: pelo contrário. As minhas mães eram, sim, mais "macho" que a maioria dos homens que conheci. 
Fiz cirurgia, uma área relativamente "masculina" e até certo ponto machista, tenho personalidade forte e impetuosa, e não me faltam rédeas para cuspir fogo ou coçar o saco que não tenho, quando necessário. Aprendi bem com elas. 
Se me perguntarem se tenho traumas: sim, somos humanos frágeis, tolos, falíveis e falhos. Muitos traumas fui eu mesma que criei. Tenho a certeza que todas fizeram o seu melhor. 
Se me perguntassem se faltou alguma coisa:  sim, algumas horas. Ainda faltam, até hoje. 
É que nós, jovens deixamos passar aos olhos valores que só vamos perceber assim, "velhos". A noção do tempo muda no decorrer da vida. 
As mesmas horas que nos doaram, como ações de uma bolsa de valores, aumentam de valor cada vez mais quanto mais o tempo passa e quanto mais você enxerga a vida nele. A ponto de, no início, lá pelas fraudas, nem reconhecermos que elas existem, e serem de grande valia os minutos do final. 
Se me perguntarem então se você mudaria alguma coisa, eu diria: quero ser igual à minha mãe quando eu crescer.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O paraense e o Círio


Quem nunca foi a Belém no Círio, não se permitiu ainda a ver ainda o que é uma verdadeira demonstração de fé. 
Paraenses  por natureza, são pessoas com muita fé e confiança. São batalhadores desde o início, afinal de contas, quem não mais do que um grande batalhador pra sobreviver à tanto calor? Já nascem suados e morenos, independente da cor de pele. Já nascem com a certeza que a chuva das 15h vai cair, e que vai passar logo. Basta você esperar em um toldo seguro qualquer. 
No Círio acontece assim:
O Paraense já acostumado a ter essa esperança, todo mês de outubro se vê renovado e abismado como tanta gente cabe numa cidade só. 
Mas ele tem fé. 
-"Sempre cabe mais um." "Pode vir, mana!" Sua casa, de repente, é invadida por pessoas, que podem ser ou não da sua família. 
É que o conceito família para nós é bem mais amplo. Afinal de contas, por que um bom amigo não pode ser da sua família também?  Por que família tem que ser só os laços de sangue? 
Por que seu amigo não pode entrar na sua casa? Ter um espaço a sua mesa? 
- "Senta aqui, meu filho!" Sim, porque sua mãe vai chamar seu amigo de filho, assim como a mãe dele vai se referir a você assim. "TU tá com fome, filho? Quer comer alguma coisa?" 
E lá descem, os pratos de maniçoba, tacacá, tucupi, tapioca, cupuaçu. (Muitas palavras esdrúxulas para os estrangeiros do Pará!). -"Senta, meu filho" "Come, meu filho!"
- "Deixa a louça aí que o fulano que vai lavar hoje!"
-"Dorme, meu filho!" 
-Mana! Mano! 
Porque a gente, assim, como quem não quer nada, vai considerando os amigos como irmãos. 
E acabam virando deus irmãos fora depois.

Quem não foi a Belém no Círio, não se permitiu a ver o que é a verdadeira manifestação de devoção. 
Acordar 3h da manhã pra ter tempo de chegar na igreja. Andar, se ajoelhar, correr, puxar a corda, carregar peso nas costas. 
Você pode olhar de fora e pensar que são todos uns loucos. Mas é que a gente tem fé. 
É que a dádiva foi tanta, mas tanta, que eu tenho que fazer alguma coisa pra retribuir a Deus, ao mundo, mesmo que seja castigando meu corpo, por toda a glória que tive. É tanta, que, às vezes a gente acha que "merece" aquela dor, depois de tanta felicidade. Não há, nenhum paraense que não tenha pedido algo à Santa, e nenhum que não tenha conseguido algum sucesso nisso. Promessa é divida. E dívida é paga logo, pelo menos as com Deus. 

Quem não foi a Belém no círio, não conhece a pureza e a generosidade das pessoas. Paraense é simples, não é arrogante. É só curto e grosso, o que muitas vezes pode ser confundido com arrogância pelos mal acostumados com hipocrisia. No fundo, não suportamos as frescuras que a etiqueta nos impõe.
- "Pra que isso" "Se aprochegue!" 
- "Menino, abre a geladeira, lá!"
-"Mana, vaza! Vambora!"
Conheça um paraense e provarás a essência da Hospitalidade. 

Das mais simples ou mais "elegantes", pessoas ajudando umas às outras, em modestos gestos, desde a distribuir água  até abanar um desconhecido embaixo do sol. É que pra nós, desconhecido não existe. Fulano, ciclano, beltrano e manos sempre estão aí, em todos os lugares. E olhamos nos olhos, e sorrimos quando os vimos nas ruas. 

Bem contra manifestações vazias e escandalosas de fé que certas datas fazem, e contra humanos que conseguem transformar festas assim em algazarras, o que sempre acontece em Belém no Círio mantém uma relação de controvérsias, única e impressionante. 

E se você não se permite ver toda a beleza que isso tem, desculpe, você não vai gostar dos paraenses...

Então, manos e manas, vão ao Pará no Círio!
Mas vá de coração aberto e puro. 
Deixe os saltos e os sapatos de fora. 
Traga muita roupa! Você vai suar! Mas todas leves e simples, assim como deve ser seu coração. 
Se não for pra ir assim, nem vale.
Como já dizia nosso filósofo papa-chibé: "Não queremos nossos jacarés tropeçando no pensamento miúdo de vocês!"

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

As três Mulheres


Se a Mulher que eu queria ser encontrasse a mulher que eu sou, como Tute dizia, eu levaria umas boas porradas! Talvez uns tabefes, vai. Só que Mulher que eu queria ser é fina. Educada. Não ia se rebaixar a tanto a ponto de precisar da força física.
O problema todo é que no fundo eu acho que tem alguém que está plenamente certo: não sei viver sozinha. É difícil ser só.
E isso foi uma grande dádiva que a vida me deu, me preenchendo de pessoas e mundos completamente diferentes, mas também é a minha grande perdição. 
Comigo mesma eu tenho que enfrentar meus medos, minhas angústias e minha solidão. Porque, sim, mesmo cercada de gente, mesmo tendo muitos amigos e pessoas maravilhosas ao meu redor, que me enchem de carinho e consideração por vezes quando podem ou não, existe uma terrível, dura e seca verdade. Verdade como as cascas de tinta usada que saem de um muro velho e quebram em suas mãos, assim fica meu coração nas chuvas de lágrimas: solitário e descascando, seco, nas mãos das pessoas e situações erradas. 
É que sozinha, estou comigo mesma, coisa que não sei bem se queria estar às vezes. 
É que sozinha tenho que encarar os meus defeitos. Olho para eles na forma dos livros que não li, na forma de tratados que deveria estudar mais, na forma de papéis com funções que tenho que cumprir, ou na forma de um simples espelho, quando deveria cuidar mais de mim e da minha saúde, e de como não fiz tudo isso nos últimos anos. 
É que quando estou comigo mesma, tenho que enfrentar o vazio que sinto quando tenho muitas coisas a cumprir, e não tenho vontade de fazer nada ao mesmo tempo. Tenho que enfrentar o tempo, imparcial e irredutível. Quase imperdoável. Que consome, aos poucos, enquanto me desespera por estar assim parada, estática. 
Às vezes, simplesmente, não sou a super mulher que eu gostaria de ser. 
Sou apenas uma menina confusa e boba, andando pelas ruas e ficando feliz em encontrar um filme bom para assistir, sozinha, sem que a julguem por estar sem uma companhia masculina no cinema.
Às vezes sou só uma Menina entrando numa agência de viagem, tentando descobrir o que vai fazer no ano novo, sem que o agente de viagem a olhe com pena por ter que viajar sozinha. "Todos os anúncios são com o preço adaptado para duas pessoas. Viajar sozinha custa mais caro, moça!" Parece que os hotéis ou as viagens perfeitas foram feitos apenas para casais felizes que querem viver em eternas núpcias. "Tadinha dessa menina!" - Deve pensar o agente. "Não tem uma pobre alma que viaje com ela!" E mesmo quando eu quero tentar curtir a vida assim, sozinha, mesmo quando a menina quer ser gente, vêm esses banhos de água fria da sociedade e molham minha alma, fazendo com que ela fique simplesmente assim: fria e congelada. Estática. 
Nestes dias eu não sou a super mulher que criei na minha mente. Não sou a super mulher com quem convivi durante anos para chegar até aqui. Eu só sou uma menina só, pequena e com o m minúsculo, saindo triste de uma agência de viagens por não ter decidido nada, e ter saído mais perdida de lá de quando entrei. 
Tem certos dias que eu não sou a super medica, a super cirurgiã, sou apenas a super Nada. Eu só sou uma tosca que carrega muito peso na bolsa, e nas costas, a ponto de quebrar uma das alças, por carregar tudo sempre do mesmo lado: o ombro direito. 
É que as vezes não tem ninguém pra ser seu braço direito, e você é obrigada a carregar o peso nos ombros. Ombros tensos, tão quanto foi a semana, mas sempre mantendo o padrão básico dos nódulos de stress e pressão nos músculos de anos de trabalho.
Tem dias que não sou a super mulher segura e cheia de si. Sou só uma menina assustada por vozes do passado, que te julgam e te criticam, assim de repente, quando você menos espera, numa música, no seu choro durante certas cenas do filme, no seu comportamento depois disso. 
"Para com isso menina!  É só um filme!
Você é muito sentimental... Credo! 
Você se importa demais com que os outros falam e pensam de você.
Você vai acabar sozinha!"
Ué? Mas eu já não estou "sozinha"? 
Tem dias que eu só sou uma menina. Com m minúsculo. Diminuída pelo peso que a sociedade cria em você, por ser sozinha. 
E se a Mulher que eu queria ser encontrasse essa menina, assustada e tola, acho que ela nem se daria ao trabalho de lhe dar umas palmadas... 
A maioria das pessoas olharia está situação e só sentiria o sentimento mais cabível em suas mentes para esta ocasião: pena. 
Mas a mulher que eu gostaria de ser não é assim destas nojentas e limitadas.
Ela olharia para a menina como uma mãe que entende uma filha, como alguém que acalenta e sabe que tudo não passa de uma fase, uma estrada pela qual é obrigatória a passagem. 
Não, ela não teria pena da Menina. 
Ela teria amor. 
Como se reconhecesse a si mesma, dentro daquele mundo de emoções e sentimentos. Como se compreendesse cada gotinha de chuva naquela alma e quisesse apenas cuidar daquelas feridas, sabendo que um dia a dor iria passar e ficariam apenas as cicatrizes toscas e as histórias engraçadas para contar depois. 
Talvez o que me conforte agora, é que a mulher que eu gostaria de ser, por vezes pode parecer tão distante, nestes momentos aparece, e mostra a cara, e um jeitinho especial de levar a vida. E ela se aproxima, como quem não quer nada, e sinto como se ela estivesse aqui, mesmo não estando completa, mas perdida em algum lugar pelas redondezas
Nos dias de menina, ela pode parecer  impossível. Mas nos dias de Menina, talvez não. 
Mas logo vem a noite. 
Logo vem o sono. 
E logo vem os raios de um novo dia, me mostrando que posso ser alguém novo, uma nova Mulher, num novo dia. 
Assim, quem eu Sou se conforta no Hoje, porque bem no fundo ela sabe que tem dias que a gente só vai ser quem quer ser, de verdade, lá pela frente, num desses Amanhã da vida. 



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Cartas do Pequeno Príncipe - A Rosa



"Eu odeio a Rosa!"
Na primeira vez em que eu li o Pequeno Príncipe de verdade, foi o pensamento imediato que me surgiu no momento em que fechei o livro. 
"Ora, o príncipe só morreu por causa dela. Essa vaca!"
Sim, eu estava revoltada.
Como uma Rosa pode fazer tão mal à um Príncipe? Como pode uma coisa dessas? 
Mas como toda fábula que se preze, esse pensamento me consumiu de tal forma que tive que ler de novo. E de novo. E mais uma vez. Até hoje, me vejo repassando passagens, sempre que alguém vem discutir algo a respeito. 
As pessoas estão acostumadas a opor-se por coisas que nao conhecem bem. Em caso de Príncipes, eu não permito.
E desatino a estudá-lo novamente.
E cada uma das vezes que leio, descubro coisas novas a respeito de algumas linhas, como num livro mágico que esconde certos trechos para certas ocasiões. 
O Pequeno Príncipe, foi assim, meu livro mágico.
E acho que as coisas mudam de acordo com o que você está vivendo aqui fora. É isso mendaz entender enpesnar melhor a respeito da vida.
Verdade mesmo é que no fundo eu sempre tive um recalque com a Rosa. 
A Rosa, representação da beleza, sim, beleza exterior? Beleza aos olhos do mundo? Eu sempre tive meu recalque com as mulheres muito bonitas. Para mim, a vida para elas sempre foi mais "fácil" no mundo em que vivemos, superficial e materialista. Já explica parte da implicância.
A Rosa, representação do que era uma coisa única e especial naquele mundo do Príncipe, que depois ele vai descobrir que existem tantas outras, outras até mais bonitas, tecnicamente falando. Outras mais jovens. Outras mais interessantes. Mas elas não são sua Rosa. Pois foi ele quem fez ela única no mundo.
Dai comecei a perceber que a "Culpa" na verdade era dele. Foi ele quem escolheu uma rosa vaidosa. Talvez naquele mundo, ele não tivesse mesmo muitas opções. Aquela era a relação que lhe foi oferecida. Ele agarrou com todas as forcas. Cuidou dela. Até o ponto de não aguentar tamanha vaidade e tamanhos defeitos, que abandonou a Rosa.
A Rosa na verdade foi abandonada. 
Enquanto isso, o Príncipe viajava. Saiu por aí, dasatando outros mundos. Conheceu gente de todo tipo. Aumentou sua visão. Viu o melhor e o pior do ser humano. Conheceu uma Raposa, amiga mais sabia e menos problemática que aquela Rosa, construiu um amor profundo e sólido com ela. Amor tamanho que até a lidar com a Rosa, e entendê-la, até isso a Raposa ensinou.  O Príncipe na verdade crescia. Estava deixando de ser criança aos poucos para se tornar o Rei de seu mundo. 
Enquanto isso, a Rosa estava lá no mundinho anterior.
De certo que sentiu falta do Príncipe, o qual já não estava lá para fazer seus mimos e desejos. Decerto que enfrentou um bom perrengue, frio, calor, fome e sede. E sem alguém pra cuidar dos baobás, será que não foi sufocada pelas entranhas das raízes de quem sempre quer te sugar? No fim das contas, acho que a Rosa sofreu mais que ele. Porque sofreu sozinha, abandonada a própria solidão que quem não consegue sair do mesmo lugar...
Daí comecei a ficar com raiava do Pequeno Príncipe. Enquanto ele viajava, a outra morria. 
Como é possível às vezes termos que nos afastar ou perder alguém para dar valor ao que tínhamos? 
Por que teimamos em sentir falta do que não temos ou não podemos ter mais? 
Seres humanos. Mesmo os Príncipes e as Rosas são bem humanos nisto...
Eu já estava desistindo de um final feliz quando a Cobra apareceu. A Cobra que me dava medo, no início, na verdade acho que significava o fim da jornada. O fim da infância. O fim do medo, do receio. A maturidade. 
Só assim, o agora Rei e a Rosa se encontrariam. Mais maduros, mais sofridos. Cheio de calos e espinhos? Talvez. Mas acredito que o coração do Príncipe era puro, não levaria isto para lá. 
Talvez agora o Rei encontrou com a Rosa. Ela percebeu o quanto sua vaidade tola era ridícula, e o quanto és era egocentrica. E ele, bem, ele já aprendera muito sobre o mundo, e sobre o verdadeiro Amor com a Raposa. E agora ensinaria para ela sobre o mundo do coração do lado de lá.
Assim se foi o meu ódio pela Rosa. 
 
 

sábado, 3 de outubro de 2015

Préconceito

Foi quando eu simplesmente defini a diferença entre o amor e a paixão para mim. 
Certo dia, naqueles de fossa ou dor de cotovelo, me pus a conversar com um daqueles amigos loucos mais certos que a gente tem. Eu estava lá reclamando as pitangas de como meu coração estava partido, de como eu sofria com aquela separação de um relacionamento que já não me fazia bem. Mas, se não fazia mal, que mal tem? 
O Louco mais certo me mandou uns links de uns vídeos de um sociólogo comentando a respeito.
Conceitos tão simples, que conseguimos afundar nas profundezas do nosso abstrato.
Eu vi o vídeo e nem acreditei em mim mesma, o quanto eu estava confundindo meus sentimentos, o quanto eu era capaz de enganar meu cérebro frente à tantos sentimentos em conjunto. 
É nesse dia que a Idade chegou. 
Já sabia eu que o Amor era assim puro e verdadeiro, que era o querer bem alguém.
Que era o fazer ao próximo aquilo que queria que fizessem comigo. 
O problema sempre foi a paixão...
A paixão na minha história sempre envolveu uma dose de dor e de trágico, quase o teatro inglês pós renascença, com todo o drama e comédia que se pode estar envolvida.
Minhas paixões, historicamente, sempre foram respresentativas de dor para mim. 
Uma escolha nova. Uma falta de opção.  Uma separação. Um desafeto. Uma divergência. Uma escolha velha. Uma opção.
Sempre meus casos de paixões anteriores eram envolvidos com uma boa e velha dose de dor e de cachaça pós tortura, como se isso cacatrizasse as fedias da minha alma. Anestesiava por um tempo, porém depois o álcool descia fundo nestas feridas, e abria buracos às vezes mais fundos dos que eu tinha quando comecei.
Então doía. Sim, doía. É por doer assim que eu pensei que eu estava  apaixonada. So que não. 
Dor é dor. 
Paixão é paixão. 
Eu tinha esquecido desse princípio básico: o conceito das coisas.
Eu o amava.
Eu sentia dor. 
Eu o amava e doía. 
Mas não estava apaixonada....
Se pudesse definir a minha paixão, diria que são as borboletas. Aquelas famosas embrulhadas no estômago. O frio na barriga. O quente em outro lugar.
O desejo. O ensejo. O imã de corpos. A vontade cega de estar nas proximidades daquela aura.
Definir isso abriu tanto meu mundo que acho que meu coração jamais foi o mesmo desde então.
Coisas que só o amigo Louco certo ensina. 

A paixão é o vestido de festa, é a capa que te atrai, ou te cega. 
O amor são as folhas do livro, é o conteúdo de cada dia. 
Um livro pode existir sem a capa. Essa capa com o tempo fica assim, borrada é velha, mas sempre remeterá aquele momento em que você viu o livro. 
Uma capa pode existir sem o livro. Vai ser bonita, útil às vezes para outros fins, mas sem um destino, fica assim vazia. 
Até um dia que encontre um livro que encaixe na estante. 
Depois disso, ler minha alma ficou mais fácil pra mim. 





sábado, 8 de agosto de 2015

Sobre Príncipes e Laranjas




Os otimistas que me perdoem, mas não quero minha metade da laranja!

Essa ideia preconcebida de que as almas foram la divididas sei lá por quem ou pelo que, em duas metades iguais, simplesmente não me apetece! 

Essa alma "gêmea", metade de mim, assim, perdida pelo mundo, como quem não quer nada, que vai um dia esbarrar pelo meu caminho, me ver e se completar comigo? Bem, acho que não... 

Se tem um Deus que criou tudo, criou tudo a partir de algo que um dia foi uma unidade. 

Quem sou eu pra imaginar que ele criou um único pedaço para mim?

Se quer saber, acredito mesmo é na teoria das Afinidades.

Eu não tenho uma metade. 
Tenho várias. 
 
Acredito mesmo é que minha "alma" foi dividida em milhões de pedaços.
Zilhões, talvez. No fundo, tudo tem a minha "alma". 

Uns pedacos são mais próximos do pedaço que sou agora, uns pedaços do que não sou, aqueles outros bem mais distantes,  tão Longe a ponto de eu nem ser capaz de identificar alguma proximidade ou afinidade com eles. Pedaços escuros e claros. Pedaços feitos, completos, como chave e fechadura, e outros apenas pedaços. 

Afinal, o que é o grande Deus além de um conceito de Universalidade?

Cada pessoa tem lá seus pontos de quina, como se fossem formas geométricas de diferentes personalidades. Uns são quadrados, outros são círculos, outros são octógonos, outros triângulos, mas sempre, sempre pedaços de uma figura bem maior. 

Um círculo pode assim encaixar com o cone, com um semicírculo, ou com aquela peça que sinta sua falta. 
Mas nunca com uma peça só. 
Umas completam mais, outras completam menos, algumas completam o suficiente para não causar desconforto. Outras por vezes, podem fazer doer as quinas. E outras simplesmente não encaixam, sem uma peça de intermédio...

Por vezes o círculo da laranja encaixa no circuito do limão. É certo que as cores podem não combinar de vez em quando, principalmente à luz do dia. Mas ambas são ácidas. Ambas são frutas feitas. Ambas são cítricas. E ambas podem deixar aquele gosto azedo no fim. 

Não, não quero minha metade da laranja. Eu nem sei se quero ser laranja, se quero virar suco, se quero virar sumo ou se quero ser uma metade. 
Deixe meus pedaços aqui comigo. 
Não são muitos, mas estão em constante construção. 

Às vezes alguns fragmentos se perdem e ficam pelo caminho. Às vezes alguns fragmentos de aderem e te moldam melhor. Às vezes geram sementes. 
Mas nunca estes pedaços estão estáveis. 

Se nem as pedras, no cálido viver de centenas de anos não estão estáticas, por que eu estaria? 

Recuso qualquer metade igual a mim. Igual ao meu ser. Igual ao que sou. Porque isso não me completaria, só me copiaria, e não seria possível ter outro alguém igual a mim. E se existisse, a probabilidade deste ser estar por perto seria próximo a nula. 

Não, nao quero ser a metade de laranja, nem de limão, nem a tampa de nenhuma panela. 

Quero aprender, achar os meus outros pedaços. Quem sabe integrar alguns deles. Quem sabe levar um pouco comigo sempre. Se um dia tiver um pedaço assim de ouro que valha tanto a pena, talvez integre ele ao meu ser. E vamos assim procurar juntos os outros pedaços da vida que nos resta descobrir. 

Os otimistas que me entendam. 

Quero muitas metades de laranja, até  achar a medida certa. 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A poeta

Minha primeira tentativa de ser poeta veio aos 7 anos de idade. À essa altura, o que me faltava de estatura, me sobrava de magreza, e eu nem sabia o que era vida ainda, mas danada como era, desatinei a escrever. 
Aos 10 anos, depois de algumas tentativas, eis que sai o poema: 
"Chorei sangue pelas veias e artérias  de meu coração" 
Eu era cálida. 
Aos 10 anos já gostava de Anatomia, e sabia quase que instintivamente que chorar pelas veias primeiro era mais grave por durar mais tempo, coisa que eu só descobriria anos depois...
Fui então por várias vezes alvo certo na roda de amigos, sequela da  minha primeira tentativa frustrada de ser escritora, frutos que colho até hoje, através de risadas, quando lembramos deste tempo. O que me traz felicidade e a certeza de que possuo o honra de ter velhos amigos. 
A verdade é que amigos traumatizam mas sempre falam a verdade, nua e cria, as vezes cozida, as vezes torta, mas sempre verdade. 
E o que eles me diziam na época era apenas que eu não podia assim ser uma criança "normal".
Demorei algum tempo para vencer
esse trauma. Até pouco, não mostrava muitos textos. Poesia então, desisti. Deixei para os  cadernos guardarem dentro de si aquilo poético que eu achava que tinha. Poesia é bom, pois é bem democrática. Sempre vai ter algum ser ou alguma categoria que te encaixe bem.
O fato é que revirando os cadernos, li relatos de mim, aos 7 anos de idade, com uma nota dez da professora depois de reinventar um poema do Fernando Pessoa. Isso foi antes das "artérias", incrível como se pode perder a auto-estima com fatos bobos de outros tolos do cotidiano. A alma pré adolescente é sempre fraca. 
A professora, grande mestra, que lembro bem até hoje, sempre gostou de mim, mesmo temperamental, mesmo cálida, mesmo tagarela de auto-estima baixa. Era daquelas pessoas que tinham a visão de águia. 
Ela entendia que escrever para mim nada mais era que um instinto, uma sobrevivência da alma. Quase uma necessidade. 
Necessidade para mim. Não para os outros. Sempre achei muita petulância escritores quererem determinar as verdades do
Mundo. Os leitores aceitam aquilo que lhe convém! 
Necessidade sim. Como o impero que surge nas horas mais inapropriadas possíveis da rotina. 
Mova esses dedos antes da ideia passar!
Mexendo na caixa, levantei a poeira de anos de escrituras e leituras guardados e escondidos. O coração sentiu, na hora, em meio a poemas, diários e cartas, muitas cartas que sempre gostei de escrever para as amigas das fileiras distantes na classe. 
E depois de tantos anos, agradeço professora, por recuperar o fôlego e retirar a poeira do poema.
Escreverei assim, leve e solta, aquilo que me couber, aquilo que já não couber mais em mim.
Deixe meus amigos terem o que falar nas rodas. Eu preciso mesmo encontrá-los com mais frequência. Estou devendo anos de risadas.
Escreverei, deixando assim a minha alma respirar o que precisa.
Sem medo de ser infeliz.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Imaginário

Olá, minha senhora, tudo bem? Bem, comigo não tá tudo bem não, mas com a senhora nao esta nada bem... Alias com a senhora ta muito pior! Perai, minha senhora,se acalme!  Eu não tenho muito jeito com as palavras. ! Eu não quero o seu mal não!  Eu só vim aqui porque preciso falar com a senhora. Preciso, não, tenho. Porque precisar mesmo, eu não preciso não! Alias, por mim eu nunca teria esta conversa com ninguém. Se eu pudesse escolher não ter que falar pra senhora o que vai acontecer, eu preferiria, mas não posso.  Alias podia, antes, quando eu fiz a escolha. Hoje já não posso mais. Porque o codigo, a ética ou seja lá o nome que as pessoas desse mundo dão pra essas coisas de fazer a coisa certa! Então eu to aqui. Com a maior das boas vontades. Enfim, eu to aqui nesse mato sem  cachorro pra fazer a coisa certa. Não, minha senhora, eu não sou certa. Eu sou tão errada ou humana quanto a senhora, não tem nada disso de Deus na terra, não.  Não minha senhora eu não sou infeliz, acredite, eu amo o que eu faço, e quando eu decidi, eu pensava que era uma coisa, mas é outra. É aquele negocio de realidade que as pessoas falam, ela veio como um banho de água fria as vezes. Não senhora. Eu não to aqui pra falar de mim. Eu to aqui pra falar da senhora. Eu to aqui pra dar má notícias. É isso mesmo que a senhora ta imaginando. É, tá muito pior do que a gente pensava. Quanto? Vixe, muito. Eu não queria dizer, mas a coisa ta feia pro seu lado. Feia, tipo, muito! Não minha senhora, não cura não... Ai, Deus! Assim a senhora parte meu coração! Não, não to dizendo que a senhora vai bater as botas, alias, eu to querendo dizer isso, mas não era pra eu dizer assim desse jeito! Isso não é coisa que se fale pra gente humana! Alias a gente não fala assim nem pra um cachorro! Não, minha senhora, nao to dizendo que a senhora é bicho, nao! To dizendo que a senhora merece mais consideração do que qualquer coisa neste mundo!! Mais que o cachorro, mais até do que eu, que sou um atrapalhado! Eu que to aqui deixando a senhora desse jeito! Não chora não, por favor! Não, nao sou eu, moça, é a doença. Nao, minha senhora, não foi Deus. Deus não faz essas coisas ruins com as pessoas não. Eu não sei! Não sei o que fez isso com a senhora, porque por mais que eu estudasse todos os livros do mundo eu não saberia lhe explicar, porque não tem explicação... A senhora nao tem culpa de nada nao. Não tem. Somos uns ratos, nos médicos.  Em certas coisas somos uns ratos! É isso mesmo, uns ratos! Minha senhorinha, não chore! A senhora é tão forte! Agüentou tanta coisa, tanto exame, tanta coisa! Se fosse eu no seu lugar eu já tinha morrido só de pensar em tanto tubo que tomaria! Eu aprendi tanto cona senhora! aprendi a ser menos Rato... Não, eu não quero morrer. E não quero que a senhor morra! Se eu pudesse escolher isso, eu também escolheria que a senhora ficasse aqui nesse mundo pra me perdoar de tudo isso. Sim, eu quero o seu bem, mesmo sem lhe conhecer. Não, isso não é pena não, é bondade no coração. Eu quero o seu bem de verdade. Queria que a senhora não tivesse que passar por tudo isso, de coração. De nada. Eu não to chorando não é um cisco no meu olho. Eu não sei quanto tempo lhe resta não. É que essas coisas,  eu vou lhe dar um número da sorte, um número assim do livro, e a senhora vai virar uma raposa. É, uma raposa, que nem a raposa do pequeno príncipe. Só que ao contrario. É, aquela que esperava ele todo o dia no mesmo horário. Se um dia chegar antes,  a senhora não vai nem tomar susto, porque nao vai nem estar aqui pra ver, e se for depois vai dizer que eu lhe  enganei. Eu nao quero lhe causar mais dor! Que isso! A ultima coisa que eu faria era mentir pra senhora! Não diga uma coisa dessas! Eu não sei o que vai ser. Só sei que vai ser difícil. Muito difícil. Que isso tudo é muito traiçoeiro. Mas eu vou estar aqui, pra lhe socorrer. Mesmo que eu nao quisesse, e olha que eu quero muito, tem o código! O que a senhora vai fazer? Como assim?! Vai viver! Tá louca?! Claro que vai! Isso demora! E dai? Pensa só: já não tem mais dinheiro que pague nada, já não tem mais tempo que importe, já nao tem mais trabalho que lhe obrigue, já não tem mais educação que lhe impeça de falar a verdade, já não tem mais coisas superficiais da vida, essas coisas que se vão, não é verdade? Nao tem briga. Nao tem discórdia. Não tem medo. Nao tem tempo. Nao tem discussão. Agora a senhora é livre. Livre pra viver sua vida. Faca o que lhe der na telha. E dai? Que seja pouco, mas que seja bem vivido, minha senhora! Claro! Pensa só quanta gente vai embora e nem se despede? Nada de desanimo! Anda, levanta dessa cama. Vem aqui, me da um abraço. Sim, é um abraço de coração. O primeiro que a senhora recebeu na vida? Eu duvido. Então, vem cá, deixa eu lhe abraçar de novo. Que é pra senhora lembrar bem desse abraço.  Eu quero que a senhora leve consigo ele para sempre. Até o dia que eu lhe encontrar do lado de lá. 
Mas é claro que a gente vai se encontrar lá. Eu não sei, mas lá deve ser muito bom, é o que dizem. Eu acredito. 
Sim, minha senhora, eu tenho certeza que esses vão ser os melhores dias da sua vida...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Os Segundos

Acho  incrível a capacidade que existe em poucos segundos de mudar a sua vida.
Sim, segundos.
A vida é o tempo.
O tempo uma linha infinita, sim, aos nossos olhos, contudo, não necessariamente reta.
Pontos pequenos que definem para que lado aquela linha irá virar. Pontos que fecham circulos, que fazem uma vida quadrada, que fazem você mudar de lugar.
Os pontos, que por tempo,definimos, segundos.
Os segundos, eu diria primeiros, se me fosse dado o poder da definição.
Esses segundos, preciosos segundos de intersceção, são aqueles pontos dos cantos da linha da vida.
O segundo em que você é feito.
O segundo em que você sobrevive aos possíveis inóspitos.
O segundo em que você respira pela primeira vez.
O segundo em que você têm consciência disso pela primeira vez.
O segundo que você fala.
O segundo que você cala.
O segundo que você sente a consciência.
O segundo que você a perde por entre os dedos.
O segundo em que você decide se será apenas mais um revoltado com o mundo ou consigo mesmo.
O segundo em que você decide se será um mero modal conformacionista.
O segundo que decide se você terá filhos.
O segundo que faz você aceitá-los ou não.
O segundo que te faz uma velhinha solteirona, ou aquele que deixa o seu velho chorando sozinho no mundo.
O segundo que revela um amigo.
O segundo que tira um de você.
O segundo em que você se apaixona.
O segundo em que você sabe que não vale a pena.
O segundo em que você dorme.
O segundo em que você bate a cabeça e acorda de um pesadelo.
O segundo que decide se você está vivo ou morto.
O segundo que decide como você vai viver os seus segundos.

Eis os segundos. Que giram e rodam em torno do mundo, brincando assim, como quando éramos crianças.
São tantos giros formando um emaranhado tão complexo de conexões, tão enoveladas quanto nosso cérebro.
Assim, quem iria entender. Melhor não dar conta mesmo.
No fim, se é que existe um fim nessa linha, somos marionetes de Deus. 
Não tão passivas, mas com as próprias pilhas.
Um resultado complexo de atos.
A consequencia de nossas decisões.
Sim, decisão. Não se pode culpar Deus por algo que foi você quem decidiu.
Não se pode culpar o próximo quando você meramente aceitou a decisão dele.
Eis a beleza das marionetes.
A única coisa que se pode fazer é tomar novas decisões. Trilhar novos caminhos. Mudar a direção da linha para um rumo melhor. Tracejá-la de modo diferente.
Trilhar caminhos nunca vistos, talvez.
Fazer diferente.
Pois não se pode aprender com novos passos se eles já trilharam as mesmas barreiras milhares de vezes.
Sejamos, sim, sensatos: trilhemos caminhos seguros, talvez, mas tentando sempre pisar num solo fértil. Com as pedras e com as aventuras, mas que seja fértil.
Afinal, essa é a vida que temos de preservar.
Nossa grande dádiva. Amuleto de nossa responsabilidade também.
O que se faz com o seu maior presente?
Certa vez alguém disse: não quero viver muito. Quero aproveitar bem a minha vida. Mesmo que eu não viva muitos anos.
A principio fiquei impressionada.
Um paradoxo do que trabalho todos os dias: pessoas que lutam para viver. Gente que extrai até a última gota de vida que lhes pertence.
Não importa a dor. Não importa os contras.
Alguém que desafie isso deve possuir o mínimo de coragem, é verdade. Diria até um tom desafiador.

Mas veio o segundo. Aquele em que você muda de opinião.
Até que ponto essa coragem de não viver é maior que a vontade de ficar?
É maior que a coragem de enfrentar a doença?
É maior que a coragem de largar o cigarro?
É maior que a vontade de encontrar o amor?
É maior que a vontade de compartilhar mais segundos com quem se ama?
É maior que a coragem de mudar as coisas?
Mais fácil é passar a vida com centenas de pessoas superficiais ou abrir sua alma para algumas?

Não sei.
Fácil mesmo é se conformar.
Fácil mesmo é encontrar uma desculpa para não mudar o mundo; que o esforço não vale a pena.

Vimamos então os segundos. Como uma grande loteria, na qual você mesmo é quem escolhe os números.
Façamos figa. Pensemos no nosso número mágico.
O que é certo ou errado? Não sei. Quem sou eu pra lhe dizer o que fazer dos segundos. Mais um mero ser que habita este planeta.
Igual a você.
Não se pode julgar os atos de alguém quando não se têm nem certeza dos seus.
Não se pode explicar para alguém o amor se você mesmo nem sabe o que é isso.
São os seus segundos.

Os meus, sim, digo primeiros. 
Na minha própria vida devo ser a rainha. Dos meus primeiros, decido eu.
Portanto, aconselho você pelo mesmo. Ser o rei e rainha dos seus segundos. Segundo sua própria vontade.
Não como alguém que segue passivamente as correntes do mundo; mas como alguém que têm consciência dos passos que dá.

E se me perguntarem se quero viver muito, eu digo: sim.
Pois prefiro 60 à 30 anos bem vividos.